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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Sete Ciganos - 29



No dia seguinte, o casal vai almoçar no restaurante de Patrício, que fica feliz ao vê-los juntos:
- Pelo que estou vendo, a bela cigana arranjou um companheiro à sua altura – diz ele cumprimentando-a afetuosamente.
- E o meu belo amigo continua galante e agradável, como sempre – fala Sofia, abraçando-o.
- Olhe essas intimidades com minha esposa – brinca Shalom e abraça o amigo.
- Esposa?! Ouvi bem?! – Pergunta Patrício.
- Pois é, rapaz. Meu filho é padre e nos casou.
- Mas que desfeita, nem me convidou, seu cabra da peste!
- Nem nós sabíamos que isso ia acontecer. Gilberto aprontou isso na hora.
- Só podia ser filho seu. Como é ele?
- Parece muito comigo, mas é mais bonito.
- Vamos sentando, meus amigos. Chega de trololó! O que vão querer?
- Uma cerveja bem gelada para começarmos – pede Sofia. – Depois a gente escolhe o que vai comer.
- A cigana falou, tá falado.
O casal se senta. O restaurante está agitado. A feira ferve de vendedores, clientes, jogadores, vadios, meninos com carros de mão, animais, risadas, reclamações, gritos, sono, suor, ofertas, flertes, negócios escusos e expectativas. Feira é um troço bonito e buliçoso que alegra, apesar de tudo.
Shalom observa a expressão de Patrício e sente que o amigo não está bem. O próprio vai servi-lhes a bebida e quando o faz, brincando, Shalom o chama para perto e fala baixo e discretamente:
- Que está acontecendo, Patrício?
- Heim?! Nada, homem. Está doido? Tá tudo bem...
- Você não me engana, macho. Sei que não está. Vejo isso em você.
- Não tente ludibriar um cigano, Patrício – brinca Sofia – Shalom enxerga sua alma.
- Pior que é – a expressão fica tensa. – Negócio é o seguinte: tenho um inquilino que já tem um ano sem me pagar e o cabra é meu irmão e moram com ele a mulher e os filhos. Sei que ele tem condição de pagar o preço simbólico que eu coloquei, mas por ser meu irmão, ele deita e rola, e eu já estou cansado de argumentar e tentar ensiná-lo a ser uma pessoa melhor. A única solução que vejo para que eu volte a ter essa grana é alugar o espaço a outra pessoa, só que não vejo como meu irmão e a família dele sair de lá. E eu preciso desse dinheiro...
- Situação difícil, camarada – comenta Shalom – mas não impossível de ser resolvida. Ponha o cara na justiça.
- Nem pensar, cigano. É meu irmão...
- Mas ele não te considera, Patrício. Se fosse um homem decente contigo, honraria o compromisso assumido.
- Não me importa como ele seja comigo. Importa é o que eu seja, não por causa dele, mas por mim mesmo.
Shalom contempla o amigo com imensa ternura e afaga-lhe o ombro:
- Você é raro, Patrício! – O cigano se demora mais um tempo encarando-o. Patrício e Sofia o observam – Vamos botar esse moço para correr.
- Que pensa em fazer, cigano?! Não vá assustar meus sobrinhos!
- Só vou assustar seu mano falso. Como ele se chama?
- Laudelino.
- Quero o endereço dele.
- Veja lá o que vai aprontar, Shalom...
- Confie em mim, amigo. Garanto-te que não haverá mortos nem feridos.
Patrício passa o endereço para o cigano.

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