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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Sete Ciganos - 37



Sexta, à noite, Shalom, Sofia e Patrício chegam ao bar onde Marcos já está tocando. Sua voz maviosa e os acordes do seu violão enchem o ambiente de ternura. Ele é um jovem cabeludo e barbudo de olhar brilhante e magnetismo intenso. Quando vê o amado chegando com os amigos dele, ri para os três, dando-lhes as boas vindas e refletindo a alegria que sente com a presença deles. Marcos sabe da conversa que o amante teve com os ciganos. Sabem que eles estão do lado deles.
O cantor dá um intervalo e vai à mesa de Patrício. Chegando lá, abraça-o carinhosamente:
- Marcos, esses são Shalom Carín e Sofia.
- É um grande prazer conhecê-los – diz o rapaz contente.
- Para nós também, Marcos – fala Shalom cumprimentando-o.
- Você canta e toca muito bem! – Elogia Sofia.
- Valeu! – Agradece modesto.
Ele se senta e a conversa se desenrola solta e animada, como se conhecessem de longas datas.
Ele volta ao palco sabendo que Shalom também toca e canta e num determinado momento da noite, o convida para fazê-lo com ele. O cigano se ergue e vai ao palco cheio de garbo. Ambos combinam que Marcos tocará e ele cantará, inicialmente:
- Que me diz de “Yolanda”, Shalom?
- Perfeito, amigo.
Marcos dá a introdução da música e o cigano começa a cantá-la. Sofia chama Patrício para dançar e ele aceita. A música ganha corpo e o cigano junto com o artista enchem a noite de romantismo e paixão:
- É um sonho, Sofia! Meu homem e o seu tocando e cantando essa música linda e nós dançando!
- É um sonho real, amigo!
Depois dos aplausos, Shalom pede o violão a Marcos e toca “Perfídia”, enquanto este canta. O dueto faz muito sucesso e consegue muitos fãs nessa noite.
O dia amanhece e os quatro vão felizes para a casa de Patrício.
À noite, eles jantam na casa do amigo e o laço de amizade entre Marcos e os ciganos é reforçado. Depois da janta, tomam vinho e jogam cartas:
- Tenho muito a agradecer a vocês pela força que tem dado a mim e ao Patrício.
- Queremos que vocês sejam felizes – diz Shalom.
- Você é um bom homem, Marcos. Patrício também. Merecem estar juntos, cuidar um do outro e partilhar o gozo da vida – fala Sofia.
- Um brinde a nós quatro! – Propõe Patrício e todos brindam – Sinto-me corajoso para assumir minha história contigo, Marcos. Doa a quem doer. Penso que temos muito mais a ganhar do que a perder.
- O amor tudo pode – diz Marcos. – Com você vou até o fim do mundo.
Os amantes apertam-se as mãos carinhosamente.
Alta noite e os ciganos decidem ir para o hotel, a fim de descansarem e deixarem o casal a sós. Patrício e Marcos os acompanham até a porta e quando estão se despedindo, um vento estranho sopra e os quatro se arrepiam:
- Que é isso?! – Pergunta o cantor.
Sofia e Shalom se entreolham e num misto de tristeza e alegria constatam que o momento da partida está se aproximando:
- É o sinal, Marcos – responde Sofia.
- Que sinal?
- O sinal de que nossa hora de levantar acampamento é chegada – responde o cigano.
Patrício se entristece:
- Mas agora que estamos tão unidos?!
- Não importa onde estejamos. Sempre estaremos uns nos corações dos outros, porque nos amamos – fala o cigano.
Abraçam-se e despedem-se.
Enquanto no hotel, os ciganos fazem amor; na casa de Patrício, ele e Marcos também se entregam.
De madrugada, o cantor desperta, pega o violão, uma folha de papel e um lápis e começa a compor uma música.
- Nossas reservas estão acabando, Shalom – diz Sofia.
- É, meu amor. Vamos ter de dar um jeito.
- Juntando o que nós dois temos, só podemos pagar mais duas diárias e o que faremos quando chegarmos a Santo Antônio?
- Não se preocupe, vai aparecer uma solução. Dinheiro é uma energia que sempre estará conosco se a amarmos e soubermos como usá-la.
- Que me diz de partirmos depois de amanhã?
- Vamos. É a hora.
- Precisamos falar com nossos amigos.
- Vamos fazer isso.
No almoço, os ciganos contam a Patrício a decisão que tomaram e embora a notícia entristeça o amigo, ele consegue reverter a energia dizendo a eles que o companheiro irá morar com ele daqui a duas semanas.
Na noite seguinte, Patrício organiza um jantar de despedida para os amigos em sua casa, regado a vinho, música e juras de amizade eterna.
Em determinada hora, Marcos diz:
- Fiz uma música em homenagem a nós quatro.
- Fantástico! Qual é o título? – Pergunta Shalom.
- Ciganos.
- Cante para nós – pede Sofia.
Marcos se apruma com o violão e dá uma introdução latina para depois começar a cantar:
Se tua voz me chama agora
Sigo sem olhar pra trás
Pouco importam os caminhos
Que não voltam nunca mais
Passa a vida, mudam os ventos
Nada fica no lugar
A maior das aventuras
É ousar saber amar
Sou capaz de deixar tudo
E seguir meu coração
Eu governo o meu tempo
Sou senhor da minha paixão
Lanço meu amor pro mundo
Não suporto opressão
Planto sonho e alegria
Colho orgasmo e imensidão.
Eu sou livre para amar
Qualquer ser que eu quiser
Uma fonte ou o mar
Um homem ou uma mulher
Sem limites pra voar
Sem temores pra viver
Muitos riscos a experimentar
Muita coisa a fazer
E escolher
Os três o aplaudem ruidosamente.
- Que música linda! – Exclama Sofia – Ela capta a essência do espírito cigano.
- Belíssima! – Fala Shalom emocionado.
- Amo você, Marcos – diz Patrício, beijando-o.
Chega a hora da despedida. Faz frio e o vento sopra triste:
- Bem, meus amigos – diz Shalom – amanhã cedo a gente vai pegar a estrada. Agradeço por tudo de bom que vocês me proporcionaram e digo que os levarei em meu coração por todos os lugares que eu andar. Que Bel-Karrano lhes abençoe!
O cigano abraça os amigos.
- Sei que a gente vai se ver em breve, meu cigano – fala Patrício – Você sabe o quanto eu lhe sou grato, por tudo que fez por mim.
- É uma pena que vocês tenham que partir – fala Marcos – mas cada um tem o seu destino e o mundo é só um acampamento. Vão em paz meus amores.
- Nunca os esquecerei – fala Sofia chorando.
- Nem nós de você, cigana – fala Patrício abraçando-a.
- Cuide bem dele – diz Marcos também a abraçando, referindo-se a Shalom.
- Cuide bem dela – diz Patrício a Shalom.
- Cuidem-se – o cigano e a cigana falam em uníssono.
De manhã cedo, o casal deixa Amargosa:
- Esse lugar me trouxe muitas coisas boas. Sentirei saudade! – Comenta Sofia.
- Para mim também foi muito bom ter estado aqui, ter te conhecido e estar com você. Qualquer dia a gente volta.
- E a Brejões também.
- Obvio.
Sofia está segurando o presente que Romeu lhes deu:
- É hora de abrir.
- Abra.
Ela abre a caixa violeta e pasma ao ver um monte de dinheiro e um bilhete:
- Que é isso, cigano?!
Shalom olha surpreso para o conteúdo:
- Tem um bilhete. Leia.
Ela o abre e lê em voz alta:
Amados Shalom e Sofia,
Decidi presenteá-los com o dinheiro da venda do meu primeiro quadro, porque intuí que isso me dará muita sorte para vender todos os que eu pintar... Boa sorte, meus amigos. Sei que farão bom uso dele.
Optcha!
Cigano Romeu”
- R$ 2.500,00? – Pergunta Shalom.
- Isso mesmo – responde Sofia depois de contar.
- Ele é louco!
- Ele é sim... Um louco adorável e de coração divino.
Sofia olha para a tela que Romeu pintou e lhe presenteou, que está no banco traseiro, admirando o próprio retrato.
Instantes após, abre o envelope amarelo e retira dele as fotos de todas as pinturas da exposição. Ela e Shalom sorriem e seguem rumo ao próximo destino.

2 comentários:

  1. Esse "Vento" às vezes dói fundo na alma. Amei a música de Marcos... Capítulo emocionante, Aruanda.

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