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terça-feira, 5 de abril de 2011

O Relógio



E aqui estou pendurado nessa parede branca em posição de destaque na cozinha deste lar doce lar. Tudo o que executo é um rotineiro tic-tac e faço meus ponteiros girarem no sentido horário a cada momento quando a bateria que me inseriram está carregada. Os segundos, os minutos e as horas dos dias dessa família que me reverencia estão todos sob meu poder. Coisa desagradável, não? (Risos). Sou o Senhor do Tempo e acho deveras divertido ver as pessoas medindo suas vidas num tempo linear que desde sempre, sempre foi espiralado. Gozadíssimo é contemplá-las programando seus afazeres como se o dia ainda tivesse 24 horas... Ouvi um ufólogo dizer que estas caíram para 17 e é bem por isso que muitos têm dito: “Não há mais tempo pra nada”. Bah! Claro que há. É só vocês se ajustarem ao tempo que aí está.

Aqui estou no alto, no altar, sendo reverenciado como um deus sem importância e absolutamente necessário. Porque é tão comum me consultarem, que vez em quando o fazem até sem me prestarem a devida atenção, e como a humanidade é mesmo estranha, só percebe a indispensabilidade do meu funcionamento quando estou parado. Coisa chata, não? Espécie obtusa que, na maioria das vezes, só valoriza as pernas, os olhos, o amor e o outro quando os perde.

6h30 a empregada loira e ninfo chega coçando e cheirando, e começa a preparar o desjejum. 7h00, a filha-paty me olha apressada, toda gostosinha, toda metida na roupa de malhar, toma um iogurte e vai para a academia (ui!) De lá vai pra faculdade; 7h30, a patroa, o patrão e o filho-alternativo aparecem para comer e beber tudo o que a loira ninfo produziu. Falam amenidades... São superficiais entre si.  8h15, eles saem e fica só a doida, que vai pra cama do casal e se masturba pensando em vários. 8h30, ela lava as mãos no toilette dos patrões, leva e seca a louça, arruma a cozinha e a casa; 9h00 bota a roupa na máquina; 9h15, fuma um; 9h30 inicia o preparo do almoço; 11h30, finaliza o preparo do almoço; 11h45, chegam os quatro; 12h00, almoçam e a depender do dia, contam piadas ou quebram o pau, ou se consolam, ou se destroem com pirraças, ou... Nossa! São tão imprevisíveis!


13h00, a filha-paty vai pro trabalho;13h30, a patroa (ganha mais do que o marido e é insatisfeita com a performance dele na cama) sai para se encontrar com o amante; 14h00, o corno vai para a repartição pública; 14h15, o filho-alternativo está teclando com o namorado que mora em outra cidade; 14h30, a ninfo está em plena siesta. 15h30, ela começa a fazer a janta e fica atenta ao televisor; 16h30, o jovem vai malhar – saradinho -; 17h30, o pai retorna do trabalho frustradíssimo e se joga na frente do home theater da sala, olhando as imagens, escutando os sons, fugindo de si mesmo. 18h00, a esposa retorna feliz e com o astral lá em cima – quem adivinhar o por quê, ganha uma passagem para Transilvânia – 18h30, chega a jovem exausta e sentindo a mulher mais porreta do mundo e 19h00, o saradinho todo suado tomando uma garrafa de energético. 19h30, janta-se; 20h30, a ninfo vai para a escola e na maioria das vezes, desvia o caminho para um bar, toma todas, mais do que chuchu na horta e curte todas; 21h00 o saradinho no computador; o patrão dormindo; a patroa lendo ou assistindo e a filha-paty estudando para concurso. 23h00, o saradinho dorme; 00h00, dorme a patroa; 01h00 dorme a concursista, 02h00,chega a loira pé-ante-pé e se joga na cama. Tudo recomeça no dia seguinte.


Quanto a mim, trabalho, trabalho, trabalho e nunca me deixam ficar parado por muito tempo. Às vezes, me entristeço com a falta de criatividade e de flexibilidade dessas pessoas que pautam suas vidas em situações confortáveis e entediantes, seguindo sua jornada roboticamente, sem saberem ao certo o que realmente poderá lhes preencher o imenso vazio que vai na alma. E cá fico mostrando um tempo irreal, que dita as normas de uma existência mentirosa, no meu tic-tac eterno, doido para que as pessoas finalmente “saibam fazer a hora”  e enxerguem que não são escravas do tempo, que são eternas e que podem fazer muito mais por si mesmas a fim de serem realmente felizes.

6 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Passei um período recente da minha vida me sentindo, mas uma sensação forte mesmo, de estar presa no tempo. Esta é uma dentre muitas viagens que tenho feito, rsrsrs. Por não saber o que estava acontecendo, achei que estava precisando aumentar as tarefas da minha rotina para não pensar tanto nisso. Depois descobri que minha alma estava querendo justamente se libertar dele, transcendê-lo. Como está no seu texto, não deixá-lo me escravizar. O bom disso tudo é que tenho encontrado minhas respostas, mas é uma prática constante. Bjos.

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  3. Ainda bem que esse relógio não fala, senão seria a maior fofoqueira do bairro!!!

    Antonio, adorei a reflexão, bjs!

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  4. Massa, Lore!Quanto mais encontramos nossas próprias respostas, mais libertos ficamos de tudo a que decidimos nos prender. Imagine, Paty, se todos esses relógios que vivem em nossos pulsos, casas, etc, falassem? Seria babado, mana (risos) Que bom que você gostou. Beijo.

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  5. Olá Antonio,
    Adorei o texto!!!! Parabéns!!!!!!!
    Tenha um ótimo fim de semana!
    Abração,
    Flávio Nunes.

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  6. Valeu, meu querido Flávio. Aquele abraço.

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