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sábado, 18 de junho de 2011

Sete Ciganos - 82


07/03.
Noite de Sexta-feira e há muitas pessoas já no interior do circo e tantas outras na fila de entrada. Os ciganos vão acompanhados do padre Altino e decidem ficar na arquibancada por julgarem mais discreto; não querem ser vistos por Diego. Luzes, música, alegria, as lonas em tom verde e vermelho brilham junto com os olhos de crianças e adultos que deixam o mundo lá fora para entrarem na dimensão circense.
Vendedores de pipoca, rolete, picolé, balas, doces, salgados, refrigerantes, refrescos e sorvetes faturam por minuto.
Atrás do picadeiro, os artistas, como sempre, estão nervosos, mas é um nervosismo normal de quem está prestes a se expor para um grande público. Depois que se mostram, relaxam e se concentram no que devem fazer.
Encerrados os ingressos, é chegado o horário do espetáculo. Todas as luzes internas da tenda gigantesca se apagam. A plateia grita. Um jato de luz é projetado para as cortinas e eis que surge a figura majestosa de Dom Diego, vestido de paletó preto e cartola. Chovem aplausos:
- Rrrrrrrrrespeitável público! Boooooooaaaa noooiiiteee! – Brada o apresentador alegremente ao microfone, enlouquecendo a assistência.
- Boooaaa noooiiiteee!!! – Responde o público.
- Está fraco!!! Boooooooaaaaaaaaaa noooiiiteeee!
Mais forte ainda as pessoas respondem e o dono do circo abre um largo sorriso:
- Assim está bom. É com muita alegria que a Família Gonzalez, cujo circo leva o mesmo nome, recebe todos vocês aqui, nessa noite de festa. Queremos proporcionar, para você e para sua família, o melhor que há em diversão e entretenimento para que possam se distrair e descontrair à vontade.
A plateia urra.
- E para seu deleite e satisfação, tenho a honra de apresentar os valorosos artistas do Grand Circo Gonzalez. Que eles recebam seus calorosos aplausos!
Abrem-se as cortinas, luzes se acendem, Dom Diego se afasta para o lado esquerdo e os artistas entram no picadeiro levando o povo à loucura. Os ciganos assistem a tudo encantados. Vêm as dançarinas e saúdam o público; em seguida, os palhaços, os trapezistas – dentre eles, Daniel, com um lindo sorriso estampado. Está radiante.
Depois vêm os motoqueiros do Globo da Morte, o mágico e a assistente, domadores e outros acrobatas.
Ordenadamente, como entraram, os artistas se retiram.
Fecham-se as cortinas. Dom Diego volta para o centro e fala ao microfone:
- Respeitável público, tenho a honra de lhes apresentar as dançarinas que vieram de Cuba e têm feito sucesso pelo mundo, Las Rumbeiras!
Entram 12 dançarinas e dão show em sua dança sensual, alegre e exuberante.
Em seguida, entram os palhaços arrancando gargalhadas dos presentes.
Finalizada a apresentação dos palhaços, entram os trapezistas e entre eles, Daniel, o mais novo de todos. Ele e os quatro artistas encantam o público com os saltos, os voos e todas as acrobacias que fazem no trapézio. Os ciganos se emocionam ao ver tanta disciplina e maestria na criança.
Depois Daniel se equilibra na corda-bamba e faz uma belíssima apresentação. Dom Diego e Rosita sempre ficam orgulhosos do filho a cada apresentação.
O mágico dá uma excelente demonstração de ilusionismo com truques clássicos, como o da assistente que entra na caixa, na qual ele enfia algumas espadas e depois usa de um serrote em três partes da caixa e as separa, ficando a cabeça da assistente numa delas, o tronco em outra e as pernas na terceira. Depois ele junta todas as partes e abre a caixa. Dela sai a assistente incólume e cheia de graça, para o aplauso das pessoas.
Logo depois entram os dois motoqueiros do Globo da Morte e fascinam a assistência com suas loucuras.
Novamente vêm os palhaços, depois os cães adestrados e sua treinadora morena; os macacos e sua treinadora loira.
É dado o intervalo. Daniel quer driblar o pai para ir se encontrar com os ciganos, mas Dom Diego não tira os olhos do filho.

O espetáculo recomeça.
As dançarinas apresentam outro show e em seguida, entram os domadores de elefantes, conduzindo os animais suntuosos Simba e Maya. Ao comando dos domadores, eles dançam, levantam as pernas, andam de ré e fazem milhares de peripécias levando a platéia ao delírio.
Novamente entram os palhaços enquanto a equipe técnica arma a grande jaula onde se apresentará o domador de leões e seus felinos.
Terminada a armação, os palhaços se retiram e entram na jaula Magnum, o forte e garboso domador de leões – homem moreno e atlético – e os animais: Zulu e Macau, os machos; Tula e Kali, as fêmeas. Com seu chicote e ciência, Magnum demonstra total domínio sobre os felinos. Reconhece isso e disso é bastante convencido do seu poder. Antonio começa a observar Zulu, que é maior do que Macau:
- Aquele leão está estranho – comenta com Sâmia – Observe.
- O que há de estranho nele, amor?
- Não sei... Estou sentindo algo... Algo está errado.
Zenaide olha para Antonio. Magnum dá o comando para Zulu saltar e passar por uma roda vazada e o felino não o obedece. O domador o ameaça com uma chibatada. O leão rosna:
Daniel presta atenção na cena e percebe que o leão não está bem:
- Zulu está doente, pai. Avise a Magnum para não exigir muito dele.
- Que nada, Daniel! Zulu não tem nada.
Magnum dá novamente o comando e o leão não obedece, sentando-se. O domador atinge a fera com o chicote e ela se enraivece. Os ciganos e algumas pessoas ficam em alerta.
- Pai!!! – Daniel grita – Zulu está sentindo uma dor muito forte. Se Magnum bater nele de novo, pode acontecer alguma desgraça!
Possesso com a desobediência do animal e cego pela vergonha de se julgar desrespeitado em público, Magnum dá outra chicotada em Zulu e é nesse momento que o cognominado Rei das Selvas ataca o domador, derrubando-o no chão. Magnum tenta se livrar do felino e este lhe dá uma forte patada, e grunhe, preparando o ataque que poderá ser fatal.
Toda a plateia pára estatelada. Nível alto de tensão. Os ciganos estão estáticos.
Num átimo, Daniel entra na jaula. Dom Diego corre para detê-lo, mas é tarde demais. O público fica apreensivo e pede para tirarem a criança dali. Os outros leões cercam Zulu e Magnum. Estão nervosos.
Daniel se aproxima do leão raivoso e toca em seu flanco. Zulu se vira para ele e o ameaça. Ele impõe a mão direita na frente do animal, fecha os olhos e diz:
- Eu te amo, irmão. Receba meu amor e se acalme. Não deixarei ninguém mais te fazer mal.
Silêncio reina no circo. Toda atenção concentrada na jaula. Zulu se aproxima de Daniel. Os olhos do menino, os olhos do animal. Magnum observa a cena impressionado. Diego transpira de medo. Rosita o ampara.
O ciganinho sorri para o felino, que abaixa a cabeça diante dele e a roça nos seus pequenos dedos, pedindo carinho. Daniel acaricia a juba do leão e este de deita no chão diante do poder do amor. Os outros leões, contagiados, aproximam-se da criança que também os acaricia e os tranquiliza:
Todos continuam silenciosos, algumas pessoas fungam emocionadas, choram baixinho... Pensam, meditam sobre suas vidas, suas crenças limitadoras, sua violência interna, as agressões externadas... Tudo parece tão pequeno diante da grandeza do Amor desse menino que os olha com olhos transbordantes de tanto amor e os emudece, que os desnuda e que lhes mostra o quão é bom amar incondicionalmente, sem amarras, sem pressões.
Daniel olha para o público, respira fundo. Os leões dormem aos seus pés. A dor que Zulu sentia não mais existe:
- Não é de violência que esses animais e vocês precisam. Não é de sofrimento nem de sacrifício. Precisamos de Amor. Só assim seremos felizes. Precisamos de Liberdade. Nada de jaulas, chicotes, armas, algemas e prisões. Precisamos de líderes que saibam servir e não tiranos que abusam de nós. O verdadeiro amor liberta e derruba grades.
As jaulas se desmontam. Os leões continuam dormindo e ninguém sente medo.
Daniel toca-os amorosamente e eles se erguem. Ele cochicha alguma coisa e sai do picadeiro, seguido pelos quatro leões.
Uma chuva de aplausos quebra o silêncio. Pessoas choram, riem, se abraçam, pedem perdão, perdoam e os ciganos sentem uma profunda alegria por estarem ali, no lugar certo, no momento certo.

O espetáculo é encerrado como de costume, mas cada pessoa se sente tocada pelo que aconteceu. Cada pessoa sabe que jamais será a mesma depois do que viu. Muitos procuram Daniel e ele os recebe amorosamente. Magnum o carrega, abraça-o e beija-o:
- Obrigado, menino de luz.
- Não os maltrate mais.
- Nunca mais.
Os leões repousam nas suas jaulas. Foram levados por Daniel, mas Dom Diego já pensa em transportá-los para um Safári ou até para a África.
Diego se abaixa para ficar da altura do filho, encara-o chorando, beija-o e abraça-o apertado:
- Te amo, meu filho!
- Também te amo, pai.
Rosita se junta aos dois
E em seguida os ciganos se aproximam.
Daniel os olha e sorri. Pega os pais pelas mãos e os conduz aos seis:
- Pai, mãe, esses são meus irmãos. Vou gostar muito se vocês os tratarem bem.
Diego se aproxima dos ciganos, pede desculpas pelo modo que os tratou no primeiro encontro e os cumprimenta gentilmente. Rosita também é amistosa.
Diego carrega o filho e o abraça:
- Por mais que me doa a ideia de você se afastar de nós – ele chora – não vou mais impedir que você cumpra seu destino, meu filho. Eu te amo, mas não posso lhe manter nas grades desse amor. Siga sua história...
- Onde quer que eu esteja, estarei com você, pai. Nem a distância, nem o tempo, nem as dimensões nos separarão.
Exaustos, todos só têm vontade de se recolher e de dormir. E assim o fazem. Os ciganos e padre Altino se despedem e se vão. Daniel dorme entre os pais.

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