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sábado, 27 de novembro de 2010

Fim de Caso - 4


Os amantes tomam o desjejum na manhã seguinte:

- Então estamos bem? – Pergunta Afonso sorrindo.

- Sim, estamos.

- Por mais que nos desentendamos, vejo que vamos viver a vida inteira juntos. Vai ser patético: nós dois velhinhos, um suportando e amando o outro – Afonso gargalha e busca a cumplicidade cômica do parceiro e tudo o que encontra é uma cara de poucos amigos.

- O que foi, Heitor? Que foi agora?

Heitor come uma fatia de queijo e diz:

- Precisamos conversar...

- Não gosto quando você inicia uma conversa com esse tom e com essa expressão.

- Não é justo.

- O que não é justo?

- Você quer viver comigo até envelhecermos. Não é o que eu quero.

- Como?!

- O que você quer não é o mesmo que eu quero...

- Você está com alguém?

- Já vem você, que alguém coisa nenhuma.

- Quem é ele?

- Não existe ele.

- Quem é ela?

- Tampouco ela. Existe apenas eu e eu desejo me relacionar com outras pessoas. Está fora dos meus planos ficar contigo até o fim dos meus dias, entendeu? Não é justo conosco continuarmos juntos, já que somos tão diferentes e temos expectativas tão dispares.

Afonso enxuga os olhos.

- Por que depois de a gente ter tido uma noite como a de ontem estamos nesse momento tendo esse tipo de papo?

- Porque são momentos distintos e só instantes deliciosos na cama não sustentam uma relação em que um vai numa direção e o outro vai noutra.

- Isso significa quê...?

- Entenda. Dói demais para mim isso, mas chegamos a um ponto em que não dá mais.

- Isso significa quê...?

- Quero me separar de você.

Afonso estanca. O choro estanca. A alma estanca. O corpo estanca.

- É isso mesmo o que você quer?

- É isso mesmo – Heitor começa a chorar. – Vou arrumar minhas coisas e vou deixar essa casa.

- Se você passar por aquela porta com seus pertences, não haverá mais volta.

- Não haverá mais volta.

O choque torna Afonso frio. Heitor está totalmente transtornado. Afonso se levanta, vai ao quarto, se arruma e vai trabalhar sem se despedir do que fica, Heitor cai em prantos, perde o apetite e começa a retirar as coisas da mesa.

Afonso entra no carro e liga o som. Ouve o familiar Cd de Carmina Burana. Dá a partida.

Heitor começa a lavar a louça.

Mais tarde está de partida, com seus pertences arrumados em três malas imensas. Olha a sala, lembra-se de cenas vividas nesse apartamento e sai.

Passando pela portaria, deixa as chaves com o porteiro:

- Boa viagem, Sr, Heitor.

- Obrigado, Matias.

Essa não tem volta!

Com a ajuda do zelador, ele põe as malas no carro e vai embora.

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