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sábado, 27 de novembro de 2010

Sete Ciganos - 12


Sexta-feira

Amanhece.

Margarida vai levar o mingau para o pai, que está na cama e ele pergunta:

- Quem é você?

- Sou Margarida, sua filha. Bom dia, meu pai. Vim trazer seu mingau.

Ela se senta na cama:

- Dormiu bem?

- Quem lhe mandou aqui?

- Jesus. Vamos nos alimentar? O mingau está gostoso.

- Você se parece com minha filha, Margarida.

- Eu sou sua filha.

- Mentirosa! Ontem Margarida completou 12 anos. Você parece com ela, mas não é ela.

- Tudo bem. Eu não sou Margarida. Sou amiga dela. Ela teve que ir comprar pão e me pediu para lhe dar o mingau.

- Eu sabia.

- Vamos tomar o mingau.

Ele se senta, pega o caneco e começa a tomá-lo:

- Como é seu nome?

- É... Rosa.

- Rosa, você se parece muito com minha filha. Diga a ela que a mãe dela esteve aqui hoje e pediu para ela passar meu paletó.

Margarida sente um frio na barriga.

- Para que o paletó, pai?... Ou, quer dizer, Seu Anselmo...

- Para a procissão, menina. Você não vai à procissão.

- Vou sim... Vou.

- Eu também vou, mas de paletó. Diga a minha filha para passar meu paletó.

- Eu digo.

Anselmo toma o alimento e Margarida sai desconsolada. Sente que a hora derradeira do pai é próxima. O que fará da vida sem ele? Sente-se só e abandonada. Pega o velho paletó cinzento e passa ferro nele e nas calças, chorando.

Cheia de angústia, ela vai trabalhar e sente dificuldade em se concentrar nos afazeres.

Ao meio-dia, uma vizinha chega ao mercado e diz que o velho não está passando bem.

Esbaforida, ela sai pela rua e esbarra em Orlando que vendo sua aflição, pergunta:

- O que está acontecendo?

- Meu pai não está bem – responde chorando.

- Acalme-se. Onde ele está?

- Em casa... Preciso ir...

- Eu te levo. Venha comigo.

Orlando abre a porta do carro e ela entra. Depois ele, e dá a partida.

No hotel, Sofia sente que Margarida está mal. Resolve ir ao mercado.

Margarida e Orlando chegam à casa. Um amigo faz companhia a Anselmo que está deitado e delirando.

- Que bom você chegou, Margarida! O velho não está bem.

Ela se senta na cama e pega na mão murcha do enfermo.

- Que aconteceu?!

- Está variando. Conversando com gente invisível e chamando o seu nome... Pedindo o paletó.

Ela respira fundo. Orlando olha-a compadecido; o outro rapaz se senta, aflito.

- Pai?!

- Margarida, minha filha, cadê o paletó?

- Está passado. Vou pegar.

- Sua mãe falou que a procissão é daqui a pouco.

- Eu sei... Eu sei. O senhor vai à procissão. Agora descanse um pouco. Na hora certa o senhor vai.

- Mas eu estou descansado. Por que está chorando, minha filha?

- Estou emocionada.

Ela o abraça e beija-lhe a testa. Ele se acalma:

- Onde estão seus irmãos?

- Por aí.

- Eles vão à procissão conosco?

- Talvez.

- Quer saber? Não me importo se eles vão ou não. Quem está ao meu lado é você. Quem é esse? – Refere-se a Orlando – É seu namorado?

- É Orlando, meu amigo.

Orlando se aproxima de Anselmo e o cumprimenta.

- Ele é um bom homem, filha. Você gosta dele?

- Sim. É meu amigo.

- Boba. Não falo nesse sentido.

Margarida e Orlando riem encabulados.

- Cuide bem dela, Orlando! É uma boa moça.

- Pai...

- Case-se com ele, Margarida.

Anselmo respira aliviado e diz:

- É muito estranho como nessa hora a gente fica tão lúcido e consegue enxergar tudo como realmente é.

Anselmo respira forte e morre.

Margarida fecha-lhe os olhos e entra em desespero. Orlando a acolhe e a conforta.

- Estou com você, Margarida.

- Eu sei. Obrigada, Orlando.

Instantes depois, Sofia chega e abraça os dois:

- Ele descansou.

Os três fazem a higiene no corpo e depois vestem-lhe o paletó e as calças. Calçam-lhe meias e sapatos e penteiam-lhe os cabelos:

- Preciso providenciar o funeral – fala Margarida, resignada. – Sofia, fique aqui. Orlando, vamos à funerária.

- Não vai ligar para seus irmãos? – Pergunta-lhe a cigana.

- Depois. Agora é hora de fazer o que realmente interessa.

Orlando e Margarida primeiramente levam um médico à casa para que ele ratifique o falecimento. Depois providenciam os serviços mortuários e retornam ao domicílio. Orlando se encanta com a força de Margarida diante da provação e ela se lembra das cartas de Sofia.

Chegando à casa, Margarida já encontra alguns vizinhos e amigos, recebe os pêsames e os informa que o sepultamento será às 17h00. Telefona para irmãos e parentes, mas nenhum garante comparecer ao enterro. Para ela, não é surpresa. Pede a Sofia que prepare alguma comida e café.

3 comentários:

  1. Ontem você me emocionou com o tema "morte". Hoje também e me encanta a leveza com que você encara isso.

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