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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Café


Todas as vezes que meus pais brigavam, ele passava um café para ambos e no momento em que ela estava sentada à mesa da cozinha se lamentando e ele gentilmente lhe passava a xícara cheia e o açucareiro, ela o olhava com um carinho sempre novo, adoçava sua bebida, tomava-a e dizia: “Hum, gostoso!” – assim terminava a briga. E por que brigavam? Namoradas do meu pai, uma paixão que minha mãe viveu com o padeiro (meu pai quase morreu), rivalidades familiares, ele torcia pelo Bahia e ela, pelo Vitória – motivo principal das turras.

Em jogos do BA-VI, a casa enchia e creio que era muito mais para se presenciar os embates entre papai e mamãe do que para se ver o jogo em si. Eles se xingavam, tiravam o maior sarro da cara do outro e tripudiavam-se entre si. Morríamos de rir com aquele espetáculo que fazia dos clássicos futebolísticos mero pano de fundo para nossa apreciação e julgamento. Horrível mesmo foi no dia em que o Vitoria derrotou o Bahia e meu pai passou mal. Mãe ficou tão transtornada que prometeu a um santo que nunca ouvi falar o nome, que se ele ficasse bem, ela queimaria a blusa rubro-negra. Ele se recuperou e ela queimou camisa alguma, pois confessou que o santo evocado não existia. Malandragem da velha.

O café de meu pai era mágico. Se alguém estava triste e o tomava, ficava feliz; mulher que não podia parir e o tomava, paria gêmeos; homem impotente que o tomava, tornava-se garanhão, pobre virava rico; mudo falava; cego via; surdo escutava e aleijado saía pulando. Um dia lhe perguntei qual era o segredo do seu café. Ele me pôs no colo, olhou-me docemente, alisou-me os cabelos e respondeu-me: “Quando passo o café, só peço que ele faça o outro mais feliz – Eis o segredo da magia”.

Certo dia, a garota dos meus sonhos fora estudar comigo e lhe ofereci café. Ela aceitou. Preparei-o com todo um drama ritualístico e no momento em que o estava passando, pensei “Que este café faça fulana mais feliz”. Ela saboreou meu café com tanto gosto, que comecei a comemorar nosso futuro namoro. No outro dia, ela estava se esfregando com um professor, e estava alegre até demais para o meu gosto. Aprendi que nem sempre a felicidade que desejamos à pessoa amada é aquela que realmente trará sua satisfação pessoal.

O tempo passou, meus pais se foram e meu café também ganhou poder. Com ele eu seduzi minhas três esposas – uma em cada época, é claro – e transmiti o segredo para meus três filhos – tive um em cada casamento: meu filho mais velho conquistou seu amado companheiro; minha filha do meio, os homens e as mulheres que a fizeram feliz e meu caçula, a mulher dos seus sonhos.

A magia do café extrapolou os limites do nosso clã e hoje milhões de lares praticam diariamente o ritual ensinado por meu pai, que aprendeu com minha avó, que aprendeu com o meu bisavô e que recebeu o encantamento por outro antepassado a fim de melhorar a vida de todos que tenham o prazer de sentar-se à mesa e saborear essa bebida sempre exótica e gregária.

3 comentários:

  1. Olá Antonio,
    Gostei do texto, tem um quê de místico e uma sensibilidade ímpar! É uma bela combinação. Parabéns!
    Abração,
    Flávio Nunes.

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  2. Pena que tive que parar de tomar café, mas posso fazê-lo, hahahahahah. Bjos.

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  3. Valeu, meu amigo Flávio. Que bom que gostou. Lore, dê um jeito de retomar esse ritual fantástico e aprecie com moderação. Beijos para vocês.

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