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sábado, 18 de dezembro de 2010

Sete Ciganos - 17



Capítulo 2
SHALOM CARÍN
Amargosa
É fim de tarde quando Sofia salta na Praça Tiradentes e se hospeda no Hotel Amargosa. Um frio cortante associado ao cansaço do corpo faz-lhe desejar apenas dormir. Toma um banho quente, depois chega à janela e contempla O Cristo:
- O que me espera aqui, Jesus?
Pensa na medalha que recebeu das mãos de Joventino, na cigana Zenaide, nos sonhos, nos ciganos que precisa encontrar, no Cruzeiro do Sul, nos amigos que deixou, na noite de amor com Gilberto e no compromisso que abriu com ele de encontrar seu pai.
Sente-se exausta, joga-se na cama e dorme. A temperatura cai sensivelmente e Sofia sonha com o cigano moreno que, no seu sonho recorrente, sempre entra na cabana após ela. Ele usa camisa vermelha e calças pretas...
No dia seguinte, acorda bem, toma um banho gostoso, perfuma-se, arruma-se, enfeita-se e sai.
Após o desjejum, decide dar uma volta pela cidade e dirige-se ao Cristo para vê-lo de perto. Acha-o bonito e o contempla por alguns instantes. Sua atenção é desviada por alguns gritos e ao olhar para o lugar de onde eles se originaram, vê uma mulher sair correndo e chorando. Sem pestanejar, vai ao seu auxílio. Pessoas observam a cena imóveis.
Sofia se aproxima dela que chora desesperada. É uma mulher morena com mais ou menos sua idade. No interior da casa objetos são quebrados e urros assustadores a ecoam gerando pavor nas pessoas.
- Posso ajudá-la, amiga? – Pergunta-lhe Sofia – Que está acontecendo?
- Ô minha irmã, é meu filho. O Diabo entrou no corpo dele e ele está quebrando tudo lá dentro e me ameaçou de morte.
Sofia abraça a mãe desconsolada:
- Vou ter uma conversa com ele.
- A senhora é louca?! – Intervém um homem ruivo – Se chegar lá, Romeu te mata. Quando ele ataca assim, temos que manter distância.
- Isso é o que veremos – fala Sofia e começa a rumar para o interior da casa.
- Quem é essa cigana? – Uma senhora pergunta a mãe chorosa.
- Não sei...
Sofia chega à porta da casa, que está aberta. Pára e evoca sua Guiança Espiritual silenciosamente. Lá dentro, o garoto continua quebrando as coisas e emitindo grunhidos bestiais. Ela entra corajosa e cautelosamente, e chegando à sala, se depara com aquele ser de cabelos loiros e desgrenhados, e olhos furiosos. Ele está sentado no chão, baba e tem as costas curvadas. Quando a vê, pega uma garrafa e atira nela. Ela se desvia e o objeto se espatifa na parede:
- Errou! – Diz ela.
- Fora daqui!
- Acalme-se.
Ela vai se aproximando dele:
- Não chegue mais perto ou eu te mato.
- Não tenho medo de você.
Romeu se desconcerta. Ela chega bem perto e afaga-lhe a cabeça:
- Tudo bem, rapaz? Meu nome é Sofia.
- Eu sou Romeu. As vozes me deixam louco e dizem que tenho que quebrar tudo.
- De onde elas vêm?
- De dentro da minha cabeça.
- Você pode dominá-las.
- É o Diabo.
- Você pode dominá-lo, então.
- Como?
Sofia sussurra umas palavras no ouvido de Romeu e ele sorri ternamente. Suas feições se suavizam e ela o abraça e ele se aninha em seus braços;
- Vamos ver sua mãe, ela está assustada.
- E se acontecer de novo?
- Não vai acontecer. Vou conversar com ela.
Com a ajuda da cigana, o rapaz se levanta, se endireita e de braço dado com ela, chega à porta da casa, para espanto dos demais:
- Mãe, vem para dentro.
Impressionada, a mulher se dirige ao filho e o abraça chorando. Em seguida, Sofia pede para que eles entrem. Feito isso, ela fecha a porta deixando grande curiosidade nos que estão na rua e vão logo se dispersando.
Com uma massagem que Sofia faz nas costas de Romeu, ele adormece. Depois a mãe faz um chá para elas e se sentam na cozinha para conversar:
- Quem é você?
- Sofia.
- Eu sou Tânia. Muito prazer, Sofia, e não sei como agradecer o que fez por nós... O que você fez? Expulsou os demônios? Sempre levo Romeu à igreja e o pastor tira esses espíritos dele, mas sempre voltam e parece que estão cada vez mais fortes.
- Não é demônio nenhum nesse caso. Seu filho tem problema nos nervos. Leve-o a um médico. Ele receitará alguma medicação e isso vai aquietá-lo.
- Mas o pastor diz que são os espíritos...
- Algum pastor já deixou Romeu tão calmo como eu deixei?
- Não.
- Confie em mim. Seu filho precisa de medicação para poder viver melhor e não de exorcismo.
- Mas e as vozes?
- São atraídas por ele em função do problema que ele tem. Experimente fazer o que estou recomendando e comprove.
- Desculpe-me... Já estou tão cansada de tudo isso – ela chora.
- Eu compreendo. E o pai dele?
- Não sei. Deixou-me faz tempo... E você, está passeando por aqui?
- Estou procurando uns ciganos.
- Quem são?
- Zenaide, uma velha e outro que não conheço, mas se chama Carín.
- O cantor?!
- Você o conhece?
- Não o conheço, mas ouvi falar de um certo Shalom Carín que chegou por aqui e faz sucesso nas serestas e com as mulheres. Dessa Zenaide, eu não sei.
- Será que é o cigano que procuro. Onde posso encontrá-lo?
- Pelo que sei, ele gosta de ficar na feira.
- Como faço para chegar lá?
Tânia dá as coordenadas para Sofia e após alguns instantes, elas se despedem:
- Muito obrigada, Sofia. Apareça e boa sorte!
- Eu que lhe agradeço, Tânia. Depois passo aqui.

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