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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Sete Ciganos - 27


- Certa vez, no bando, há muito tempo atrás, chegou uma gajona de 14 anos, à procura de comida e abrigo. Seu nome era Carmem. Estava suja e maltrapilha e foi acolhida por uma cigana chamada Luzia, cuja irmã, cega de amores por um gajão, deixou o bando.

“Luzia ficou com muita pena da jovem e se encantou com sua formosura, por isso se dispôs a ajudá-la porque sabia que mais cedo ou mais tarde ela cairia na prostituição para se manter e algo no coração da cigana lhe dizia que ela tinha que ajudar aquela jovem.”

“Alguns ciganos mais conservadores não gostaram do fato de Luzia abrigar uma gajona em sua barraca, principalmente seu companheiro, o cigano Estevão, mas ela resolveu seguir sua intuição e passou por cima de tudo para escutar sua voz interna e teve a grande ajuda do único filho Tiago, que se encantou pela moça”

“Num dia, numa conversa entre ambas, pela primeira vez, Luzia encontrou traços familiares em Carmem e quis saber sobre seus parentes. A forasteira disse que era filha de uma mulher muito bonita e de um bom homem. Levavam uma vida plena quando os negócios dos pais, que era uma confeitaria,eram prósperos, mas o pai começou a se meter com jogo e política, até que faliu completamente.”

“Carmem contou que sua mãe deu duro durante todo o tempo, para manter a família, mas o pai era fraco e se suicidou. Desde então ela passou a se maldizer e a se dizer arrependida por ter deixado tudo para trás, inclusive seu povo. Mas o tempo passou, ela desenvolveu um câncer e morreu.”

“Carmem só tinha sete anos de idade e aquilo fora um terrível golpe que a abalou profundamente. O pessoal da igreja internou-a num orfanato e lá, embora ela tivesse um teto, comida e roupa lavada, era maltratada e sonhava em fugir dali.”

“Não suportando mais aquela vida, fugiu e caminhou até a cidade próxima, que ficava a uns 7 km, onde encontrou o bando de Luzia, que estava de passagem, e foi por ela acolhida.”

“A cigana então perguntou à moça o nome da mãe dela. Carmem lhe disse que era Samira. Os olhos de Luzia se encheram de lágrimas porque Samira era o nome da sua irmã que havia deixado o bando para fugir com um gajão. E observando com mais atenção, encontrou semelhanças de sua irmã na jovem. Seria ela sua sobrinha? Era apenas coincidência? Mas como se para os ciganos, não existe o acaso... A cigana passou o dia inteiro pensando nisso e pedindo um sinal que lhe confirmasse a suspeita.”

“Foi então que, à noite, na hora do jantar, a alma de Samira apareceu para Luzia, Estevão, Tiago e Carmem e lhes disse que a jovem era sua filha, era cigana e que ela a havia encaminhado para o bando, porque sabia que eles cuidariam bem dela”.

- Houve grande alegria por parte daquela família e para os demais ciganos. Tiago e Carmem se apaixonaram, casaram-se e dessa união, eu nasci – conclui Shalom emocionado. Sofia e Gilberto enxugam os olhos.

- É linda, meu pai!

- O vento levou e trouxe de volta – reflete Sofia.

- Meus pais viveram juntos e foram felizes, apesar dos senões, até a morte dele. Depois de alguns dias, ela não suportou a saudade e morreu também. Partiram velhinhos e com certeza protegem a todos nós, onde quer que estejam.

- É estranho estar fazendo agora esse resgate – comenta Gilberto. – Sempre vivi sem referência alguma sobre minha raiz cigana. Apenas sabia que era filho de cigano e às vezes, minha avó, quando estava a sós comigo, falava de você, dos meus avós, mas era coisa pouca. Sempre quis saber mais. É um presente tê-lo novamente, pai.

Shalom se levanta, dirige-se ao filho, afaga-lhe a cabeça:

- Há muito tempo que não sou tão feliz.

Os dois se abraçam.

No dia seguinte, bem cedo, Shalom e Sofia já estão saindo pé-ante-pé para não acordarem Gilberto, só que são surpreendidos pelo mesmo e se assustam:

- Aonde pensam que vão sem tomar café-da-manhã?

- Gilberto! – Exclama Sofia – Pensei que estivesse dormindo!

- Ela me disse que você gosta de acordar tarde... Não queríamos te incomodar – fala Shalom sem jeito.

- Vamos comer alguma coisa, seus fujões. Levantei mais cedo e fiz café para nós.

Os três se sentam à mesa, comem, bebem, conversam e por fim, Gilberto acompanha os dois à porta, mas antes de abri-la, detém o casal, olha bem para os dois e diz:

- Saibam que abençôo a união de vocês.

- Não estou entendendo – fala Shalom.

- Não se esqueçam de que sou, antes de tudo, cigano. Conheço as pessoas e as coisas. Sei, meu pai, que você está apaixonado por Sofia e que mais cedo ou mais tarde, minha cigana, você se apaixonará por ele. Se eu ainda não me sentisse verdadeiramente comprometido com minha vocação sacerdotal, eu deixaria tudo, Sofia, e me casaria com você, mas estou e por isso, por te amar e por também te amar, Shalom, eu vos declaro marido e mulher.

- Mas... Como se eu nem?... – Retruca Sofia achando o momento hilário.

- Sofia, ele é um sacerdote e nos abençoou – diz Shalom.

- Pode beijar a noiva – Fala Gilberto, divertido.

O cigano rouba um beijo da mulher e ela corresponde:

- Mas ainda desejo seu filho! – diz Sofia.

- E quem está pedindo para que você deixe de desejá-lo? Filho, pode beijar minha noiva, que também foi sua mulher.

Sofia e Gilberto se beijam. Por fim, pai e filho se abraçam carinhosamente, beijam-se e os ciganos pegam a estrada, enquanto o padre contempla o carro se afastando, levantando a poeira do chão e com um leve sorriso estampado no rosto. Gilberto sabe que um dia também porá o pé na estrada, mas esse dia ainda não chegou.

5 comentários:

  1. Eu amo essa história, minha amiga. Penso que exponho nela toda a minha loucura e liberdade.

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  2. Criatura! Adoro sua loucura e sua liberdade... Você me choca e isso é interessante!

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  3. Meu Pai do céu!!!!!! Minha Mãe também....

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  4. Chamemos nossos tios,avós,sobrinhos, primos e toda a parentada celestial que isso é só o início.

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