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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Sete Ciganos - 31



Sofia prefere visitar Tânia em vez de repousar. Ela estaciona a condução em frente à casa da amiga, despede-se do marido, ele assume a direção e se vai.
Ela bate à porta e a amiga lhe atende com ar de preocupação:
- Ah! Graças a Deus você apareceu. Deixei milhões de recados no hotel!
- Que aconteceu?!
- Romeu está muito estranho.
- Que foi?!
- Desde que eu dei o banho que Shalom mandou, que ele vem sonhando com ciganos e viagens. Sem me pedir permissão e muito menos sem a autorização de Shalom, ele tirou a moeda do saquinho de algodão que fiz, foi a um lugar que trabalha com bijuteria, mandou furar a moeda e colocou-a numa volta de ouro, pondo-a no pescoço. Acredito que por causa dos remédios, ele tem dormido muito e perdeu a vontade de pintar. Hoje de manhã, ele acordou e sentou diante de uma tela em branco e até agora está olhando para essa tela, em silêncio. Não fala, não levanta, não come, não bebe, não faz nada nem esboça qualquer reação. Eu falo com ele e parece que está longe, em outro plano... Estou com medo, Sofia!
- Deixe-me vê-lo.
- Venha.
As duas entram na casa e vão ao quarto do jovem. Ao entrar no recinto, Sofia se arrepia ao ver a cena altamente transcendental do artista de olhos vidrados na tela branca banhado por uma cascata de luz com as cores do arco-íris. Ela sente presenças muito sutis no local e se alegra. Tânia mira-a assustada e curiosa e percebe que algo que ultrapassa seus conhecimentos está se passando com a amiga e o filho.
Romeu está em puro êxtase criativo, recebendo informações, insights, técnicas e segredos de grandes mestres e artistas de outras dimensões. O fato de ser esquizofrênico, o torna capaz de acessar várias dimensões ao mesmo tempo, como sempre o fez, só que agora é diferente: ele está aprendendo a lidar com a Força da própria mente.
Sofia o contempla mais alguns instantes e depois se retira devagar do quarto e faz sinal para a amiga fechar a porta e deixar o jovem em paz.
Ambas vão para a cozinha.
- Tem café? – Pergunta a cigana.
- Sempre.
A dona da casa serve à cigana, serve-se e se senta de frente para ela:
- O que ele tem?
- Eu tenho o dom da Visão. Seu filho está passando por um processo muito lindo de iluminação e acredito que recordação de alguma vida em que foi um grande artista. Nesse momento há muitos Guias interessados na genialidade dele e estão preparando-o para algo que despertará as pessoas para um novo sentido de vida. Através da arte dele, ele vai ajudar muitas pessoas no mundo. Na hora certa, quando ele tiver recebido o que precisa, vai sair desse torpor e vamos ver o que vai acontecer.
- Temo que ele tenha outra daquelas crises.
- Tranquilize-se. Aquele tempo passou.
À noite, Shalom e Sofia vão à casa onde mora Laudelino. O cigano estaciona próximo à residência e põe-se a esperar em silêncio. Ao ver o carro do homem se aproximando, diz para a cigana:
- Agora vem a segunda parte do feitiço. Fique no carro.
- Certo.
Beijam-se e ele se vai ao encontro do outro.
Laudelino salta do carro para abrir o portão. É um pouco mais velho e mais magro que Patrício. Shalom o aborda:
- Boa noite, Sr. Laudelino.
- Pois não – responde o homem desconfiado.
- Vim lhe comunicar que seu irmão me entregou sua dívida de aluguel e eu paguei. Além disso, comprei essa propriedade. Sendo assim, o senhor tem uma semana para sair daqui. Esse lugar não lhe pertence.
- Espere aí, cara! Quem você pensa que é para chegar assim e ir ditando as regras? Não é bem assim, não! Cadê o documento da compra? Quem tinha de falar comigo era Patrício e...
- Baixe o tom, meu amigo. Não quero escândalo. Vamos por partes: Sou Shalom Carín, sou cigano e tenho muito poder. Há algum tempo que venho lhe espionando e descobri coisas interessantes a seu respeito que posso usar contra o senhor, caso o senhor faça a besteira de dificultar as coisas: como seu caso com sua cunhada e seus negócios escusos com mercadoria roubada.
Laudelino empalidece.
- Por isso posso ditar o que eu quiser – continua Shalom calmamente. – Que vergonha! O senhor usar o imóvel do seu irmão por tanto tempo e não pagar?...Ele fez um preço camarada e ainda assim, o senhor se deu ao desplante de passar a perna no coitado. Se o senhor passasse necessidade, tudo bem, mas pelo que sei, está nadando em dinheiro enquanto Patrício está no maior aperto. Ele me procurou pedindo dinheiro emprestado e quando lhe perguntei se ele tinha qualquer bem que tivesse de garantia, caso não honrasse com o compromisso da agiotagem, me falou muito sofrido desta casa, das vezes que tentou expor para o senhor a situação dele e da forma descarada que o senhor o enrolou tantas vezes. Não se faz isso com irmão, moço! O que o senhor fez com ele é pior do que eu faço. Então pare de cantar de galo, seu borra-botas, e não queira medir força comigo ou vai se ferrar. Eu não tenho nada a perder. O senhor tem. E quanto aos documentos de compra – Shalom lhe mostra a adaga na cintura do lado esquerdo e uma pistola no direito – São esses aqui.
Laudelino se urina:
- Pelo amor de Deus, cigano! Eu já entendi! Eu já entendi! Vou sair daqui o mais rápido possível. Não se preocupe.
- Acho bom e se der com a língua nos dentes sobre mim, tem gente minha de olho em sua mulher, em sua amante em e seus filhos e lembre-se: Não tenho nada a perder. O senhor tem.
- P... Perfeito. Eu entendi. Vamos sair daqui a menos de uma semana!...
- Bom menino! Até que você não é tão filho da puta quanto imaginei. Que dia é hoje?
- Quinta-feira.
- Na próxima quinta, quero esse lugar limpo e desocupado. Entendido?
- S... Sim.
- Passar bem!
- O... O senhor também...
Shalom se vai para o carro e o homem senta-se no passeio bestificado.

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