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sábado, 12 de fevereiro de 2011

Sete Ciganos - 32


Na alcova, os ciganos fazem amor e comemoram os últimos acontecimentos, com luz de velas, vinho, boa música, uvas, castanhas e maçãs.

Enquanto isso, Romeu sai do transe, mune-se de lápis, pincéis, tintas e começa a rabiscar algumas coisas na tela. Tânia dorme e sonha ouvir violinos e castanholas. Patrício, em sua casa, desperta sobressaltado sentindo uma estranha fragrância de rosas e ouvindo trote de cavalos. Chegando à janela, vê a rua vazia e ouve uma gargalhada na noite. Ri e sabe que a Magia Cigana está à solta.

No dia seguinte, Romeu começa a pintar. Não permite que ninguém entre no quarto, come, bebe e fala o estritamente necessário com as pessoas. Também se levanta e interrompe o trabalho nas vezes em que vai ao sanitário. Incansavelmente busca a perfeição ao pintar uma mulher: Sofia.

Os ciganos vão à sua casa pela manhã e a mãe, tensa, lhes conta sobre o seu comportamento e a forma que ele decidiu usar o talismã.

- Vejo nada de mais nisso – comenta Shalom, tranquilamente. – Seu filho é um mago de longas datas. Talvez tenha usado os poderes de forma irresponsável no passado e por isso veio um tanto desarranjado, mas agora vejo que há nele uma sabedoria milenar. Não se assuste! Ele sabe o que está fazendo.

- É que já estou tão “escaldada” das crises dele que até a calma me incomoda, me assusta.

- Ele vai se superar – fala Sofia. – Você vai ver.

- Tomara! – Exclama Tânia, apreensiva.

Na quarta-feira, Shalom e Sofia vão almoçar no “Meu canto”. Com o passar dos dias, Romeu mantém-se pintando no seu comportamento de ermitão. Tânia vai se tranquilizando em relação ao filho e passa a se dar conta de que está relaxada e não se importa com o fato de ele ser especial.

Chegando ao restaurante, sentam-se e Patrício se aproxima dos dois sorrindo desconfiado. Chegando à mesa, cumprimenta ambos carinhosamente, senta-se e pergunta ao cigano:

- Diga-me só o que você fez, Carín?

- Como assim? – O cigano faz-se de desentendido.

- O que você fez com Laudelino?

- Ah! Já tinha me esquecido... Fiz o que devia ser feito.

- Ele chegou aqui cabisbaixo, me deu as chaves e disse que havia arrumado outra casa. Pediu-me perdão pelas coisas que me fez passar e disse que jamais esperaria uma atitude daquelas vindo de minha parte... Eu fingi que sabia do que ele estava me acusando de ter feito e “cantei de galo” dizendo que agi daquela forma para ele aprender a nunca mais ser desonesto com as pessoas. Agora me conte, cigano, o que você fez? – Patrício não se contém de tanta alegria.

- Só dei um susto nele e fiz um feitiço leve – responde Shalom enigmático. – Não importa saber o que e como fiz, amigo. Você tem a sua casa de volta e é isso o que interessa.

- Eu lhe sou muito grato, Shalom.

- Deixe de conversa fiada, homem, se é mesmo grato, traga dois pratos feitos e nossa cerveja.

- Nada disso. De agora em diante não sirvo mais prato feito a vocês. Serão meus convidados de honra, todos os dias, e almoçarão de forma decente sem pagar nada. É o mínimo que posso oferecer para retribuir o bem que você fez por mim.

Shalom o encara com um sorriso amável, levanta-se e dá um forte abraço no amigo. Sofia observa a cena, encantada.

Horas depois, Shalom retorna ao local onde arriou o melão, levando três melões, sendo que um estava cortado na horizontal; outro, na vertical e o outro, inteiro. No primeiro, acende uma vela cor-de-rosa; no segundo, uma verde e no último, uma branca e diz:

- Obrigado a todos os Ciganos e Guias que me ajudaram nessa empreitada.

Levanta-se, bate palmas sete vezes, dá as costas à oferenda e se retira sem olhar para trás.

No dia seguinte, ele e Sofia vão à casa de Tânia. Romeu está sentado no sofá, de banho tomado e excelente aspecto:

- Bom dia, meu artista! – Sofia o cumprimenta afetuosamente.

- Bom dia, meu anjo bom! – Ele responde.

- Bom dia, Romeu!

- Bom dia, Shalom!

- Que bom te ver tão disposto, Romeu! – Comenta Sofia .

- Ele fez algo impressionante, cigana! – Diz Tânia;

- O que foi? – Indaga Sofia.

- Venham ver.

Tânia pede que marido e mulher a acompanhem.

Quando entram no quarto, deparam-se com uma tela coberta por um pano. Sofia olha a tela coberta e procura os olhos da amiga, curiosa. Romeu chega ao quarto e se dirige ao quadro. Aproximando-se dele e sem nada dizer, puxa o pano e eis que surge uma imagem que deixa os ciganos maravilhados, especialmente Sofia; é o retrato dela, usando um vestido vermelho, com o rosto meio de lado e olhos fechados. A imagem passa um mistério tal que sugere milhões de pensamentos e emoções em quem a vê:

- Estupendo, Romeu!

- Obrigado!

- É perfeito! – Exclama Shalom.

- Eu fiquei impressionada com a perfeição da arte, quando vi o quadro – diz Tânia.

- Seu filho é um gênio! – Diz Shalom.

- O próximo será você, cigano – anuncia Romeu.

Shalom o olha emocionado e o abraça.

Passa-se uma semana e Romeu pinta Shalom com uma perfeição que deixa sua mãe, os ciganos e pessoas amigas admiradas com seu talento. Cogitam-se na cidade vários motivos para esse despertar repentino do dom no rapaz que até pouco tempo vivia a dar crises de loucura: de mediunidade pictórica a feitiçaria não faltam palpites dos mais ignorantes aos mais consistentes. Seja como for, a fama do jovem artista começa a correr e muitas pessoas passam a visitar sua casa para ver suas obras.

Mais uma semana passa e Romeu apronta um quadro que encanta mais ainda Shalom e Sofia: através da extrema sensitividade, o pintor captou a imagem dos sete ciganos sentados em volta de uma fogueira, numa noite estrelada e a reproduziu na tela. Sofia chora ao ver a obra de arte:

- Quanto custa? – Pergunta ao jovem.

- Nada. É seu.

- Romeu, não posso aceitar. É seu trabalho. Você gastou material e tempo...

- Posso fazer milhões outros desse, cigana. Esse foi feito para você e Shalom e é o meu presente e tem mais, vocês já sabem onde encontrarão o próximo cigano?

- Sabemos. Em Santo Antônio de Jesus – responde o casal.

- Isso mesmo. O nome dele é Pedro e é esse velho – aponta para o cigano idoso que está sentado ao lado de Shalom, na pintura.

- Quem lhe disse isso, meu filho? – Pergunta Tânia entre a aflição e o endeusamento.

- Eu ouço tudo em minha cabeça, mas nem por isso quero que haja sobre mim uma aura de temor ou mistério. O que eu faço qualquer um pode fazer. É só não ser tão normótico ou lúcido.

- Como podemos retribuir esse inestimável presente, Romeu?! – Pergunta o cigano.

- Organizem uma exposição para mim para daqui a três meses. Essa vai ser a alavanca que me lançará para o mundo.

Tânia se arrepia.

- Está bem, muchacho! – Fala o homem – Vamos expor sua arte.

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