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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Sete Ciganos - 42


Ele solta a meia e retira a mão da água.

- Por favor, rezem um Pai-Nosso – pede Pedro.

Todos rezam.

- Podem desfazer a corrente.

A corrente é desfeita e muito pálido, Pedro se debruça na mesa:

- Preciso beber leite com sal. Minha pressão caiu.

Pedro começa a suar frio e Olga o acode. Ele toma o leite com sal, respira fundo e começa a melhorar:

- A moça pegou pesado. Timóteo está sob a Lei do Fascínio. Totalmente dominado por ela. Ele não a ama; só está escravizado. Primeiramente, segundo meu código de ética em feitiçaria, vou negociar com o mago que usa seus poderes para fazer coisas tão baixas. Depois usarei o outro lado da ética.

Os três o olham admirados.

Olga hospeda os ciganos em sua casa e no dia seguinte, Pedro anuncia que vai à casa de Márcio.

- Mas como?! Você sabe onde ele mora? – Pergunta a dona da casa.

- Sei. Consegui localizá-lo.

- Podemos ir com você? – Questiona Shalom preocupado.

- Não, Shalom. Por enquanto, não.

- Pelo que você nos contou ontem – fala Sofia – Márcio é um mago inescrupuloso. Temo por você.

- Ora, ora! Não é todo dia que um velho caquético como eu tem o privilégio de causar aflição a uma moça bonita como você.

Todos riem.

- Não se aflijam! Não se esqueçam que sou metade índio, metade cigano.

Instantes após, o cigano Pedro sai com seu carro, enquanto seus amigos ficam em casa rezando por ele. Num ímpeto, Shalom faz menção de segui-lo, mas Sofia o detém:

- Calma, homem! Pedro sabe o que está fazendo. Nossa hora de agir vai chegar. Não se precipite.

O cigano se dobra ao conselho da mulher.

Pedro estaciona em frente a uma casa isolada, no meio do mato, de péssimo aspecto e sente arrepio:

- Lugarzinho feio! Reflete a alma de quem mora.

Está diante de uma cerca, em frente a um portão de madeira estragado e bate palmas, na intenção de chamar quem pode estar lá dentro. Nenhum sinal.

- Ô de casa! – Grita o cigano – É acho que não sou bem-vindo. O cabra já deve saber quem eu sou e o que vim fazer.

No interior escuro da casa, atrás da porta alguém o observa.

- Senhor Márcio!

Nada.

- Bom, se Maomé não vem à montanha...

Pedro abre o portão e entra na propriedade. Imediatamente um enorme cão negro sai pela porta e corre de encontro ao invasor com a intenção de atacá-lo. Pedro respira fundo, olha nos olhos do animal feroz e balbucia algumas palavras. O cachorro pára diante dele, aproxima-se já com ar inofensivo, cheira-lhe os pés, as calças, as mãos e o cigano se curva para afagá-lo a cabeça:

- Bom menino, bom menino! Como é seu nome, rapaz?

- Negro é o nome dele – diz o homem cabeludo, de rosto belo, mas com olhar estranho e repelente. Ele tem baixa estatura e barriga um pouco saliente – E onde já se viu entrar na casa de alguém sem ser convidado, senhor? Acaso não lhe ensinaram os bons modos? – Márcio permanece na porta – Impressionou-me o truque de neutralizar a estranheza que meu amigo canino sentiu pelo senhor, mas isso é elementar diante do que existe por aí.

- Me desculpe a invasão, Senhor Márcio – fala Pedro de onde está. – Mas eu precisava muito falar com sua pessoa – diz o cigano com ironia. – E sabia que o senhor estava em casa e me observava.

- O que deseja?

- Conversar.

- Não tenho tempo para conversas, senhor...

- Pedro.

- Sim, sou um homem ocupado...

Pedro começa a se aproximar:

- Não vou tomar muito do seu tempo.

- Não se aproxime mais. Vá embora daqui!

- Coisa indelicada, Márcio!

- Estou lhe avisando, saia enquanto é tempo. Não se meta comigo ou vai se dar mal.

- Bobagem. Quem já viu a cara da morte não teme um bruxo tão bonito como você.

Márcio encara Pedro e este começa a sentir um peso na perna e vai perdendo os movimentos até ficar totalmente paralisado. Márcio ri triunfante:

- Eu lhe avisei, cigano velho e besta!

Pedro encara Márcio e este começa a se entortar até ficar totalmente contorcido:

- Pose bonita, jovem insolente!

- Pedro, tire-me daqui!

- Só se você me devolver os movimentos.

- Não confio em você.

- E em você, confia?

- Tire-me daqui, seu bosta!

- Ai, ai, ai! O mago está ficando nervosinho. Escuta aqui, garoto – Pedro readquire os movimentos e Márcio continua contorcido – Não sou menino. Tenho mais estrada do que você. Você realmente é um jovem poderoso e poderia ter um futuro brilhante se usasse sua magia para ajudar as pessoas e não para manipulá-las e destruir suas vidas. Vim aqui para educadamente lhe pedir que desfaça o feitiço que fez com o sapo para escravizar Timóteo a Nide. Limpe a sujeira que você fez. Olga, a esposa dele, está sofrendo muito e não merece isso. Devolva o dinheiro àquela infeliz e não faça mais maldades ou vai se ver comigo. Se não atender minha solicitação, prepare-se. E vê se dá um jeito nessa espelunca. Isso aqui está um lixo! Tenho muito a lhe ensinar, minha criança. Quando eu tinha sua idade não tinha nem metade do conhecimento que você tem hoje e fiz, como você, muita besteira. Mas se quiser vencer essa prepotência fruto da sua imaturidade e quiser ser meu amigo e usar seu Dom para ajudar a humanidade, estarei a sua disposição e quando você chegar à idade que tenho hoje, será muito melhor do que eu.

Sem dar as costas para Márcio, Pedro vai recuando para o portão, despede-se de Negro com um afago e se coloca do lado de fora da cerca. Olha para Márcio e ele volta ao normal.

- Impressionou-me o truque de me fazer paralisar, mas isso é elementar diante do que existe por aí – diz Pedro, entra no carro e se vai.

Irado, Márcio entra em casa e bate a porta.

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