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domingo, 10 de abril de 2011

Sete Ciganos - 52



No dia seguinte, os ciganos e o casal de Amargosa se preparam para “bater em retirada”. Tomam o desjejum e se despedem da família, fazendo votos de amor e paz. Na saída, Romeu aborda Sofia:
- Lembra-se do que eu lhe disse?
- Sobre o mar?
- Sim.
- Lembro. Sabe do que se trata?
- Mesmo se soubesse, não lhe diria. É surpresa.
- Tudo bem.
- Sucesso para você, cigano!
- Que Sara lhe abençoe, Sofia! A você e a todos os que te acompanham.

De volta ao Terminal Marítimo de São Joaquim, nossos amigos pegam outro Ferry-Boat de volta à Ilha de Itaparica.
Enquanto os homens falam da exposição de Romeu, Sofia se afasta para contemplar o mar e se lembra das palavras do pintor. Qual será a surpresa, meu amiguinho?
Sofia sente sede e resolve ir à lanchonete, compra uma garrafa de água mineral.
Uma mulher se dirige à porta pela qual ela vai passar, para acessar a lanchonete.
O coração de Sofia acelera.
O da mulher também.
Elas pressentem algo. Elas sabem o que está para acontecer.
Sofia cruza a porta e esbarra na mulher. Ambas se olham. Os olhos da pessoa são claros e expressivos; a pele é vermelha; os cabelos, loiros. É uma cigana! Usa vestido rosa com fitas verdes, como no sonho, tem seios fartos e muita vitalidade:
- Como nos sonhos! – É o que Sofia consegue dizer.
- Você?!
- Um amigo me disse que o mar me traria uma surpresa.
- Eu só ia viajar à tarde. Deu-me um negócio na cabeça e quando vi, já estava embarcando.
- Eu sou Sofia.
- Eu sou Sâmia.
- É um prazer, irmã.
- Também meu, irmã.
Sofia e Sâmia se abraçam.
- Eu preciso comprar água... Vem comigo.
- Vamos.
Sofia compra uma garrafa para si e para Sâmia:
- Você está só? – Pergunta-lhe a loira.
- Não. Lá em cima estão Shalom, Pedro e mais dois amigos gajões.
- Onde os encontrou?
- Shalom, em Amargosa e Pedro em Santo Antônio de Jesus. Segundo as orientações nós a encontraríamos em Nazaré. Não sei por que aconteceu aqui, nessa balsa.
- Eu moro em Nazaré há muitos anos. Vim à capital resolver umas coisas e estou regressando hoje.
- Ah! É casada?
- Não. Vivo só e desgarrada por opção.
- Sabe da lenda?
- Sei, mas confesso que já começava a achar que era só um delírio... Só que aí, você apareceu e não sei mais o que pensar.
- Vamos ver os outros.
- Vamos. Preciso conhecê-los... Também sonhei muitas noites com você e os outros.
As duas sobem as escadas e quando chegam à parte de cima da balsa, Shalom paralisa ao vê-las:
- Santa Sara!
- Que é cigano? – Pergunta Patrício.
- Olhem – ele aponta na direção de onde vêm Sofia e Sâmia.
Os três miram e se espantam:
- A quarta cigana! – Exclama Pedro sorrindo.
As ciganas se achegam ao grupo:
- Esta é Sâmia – apresenta-lhe Sofia.
- Então seu nome é Sâmia, moça bonita – diz Pedro, tomando a mão da moça e beijando-a galante.
Ela ri:
- Sou e o senhor, pai?
- “O Senhor” está no céu, minha criança. Eu sou Pedro e é um prazer reencontrá-la.
- Este é Shalom, Sâmia, meu marido.
- Prazer, cigano! – Ela lhe aperta a mão.
- O prazer é meu – fala estupefato com a surpresa do encontro.
- Estes são Patrício e Marcos, nossos amigos – continua Sofia.
- Muito prazer, amigos – saúda-os a cigana loira e eles a cumprimentam.- Patrício é o nome do homem que iniciou a tradição da Feira de Caxixis em Nazaré.
- Caxixis? – Pergunta Sofia.
- Depois conto a história para vocês.
- Pensava que iríamos encontrá-la em Nazaré – fala Shalom.
- Isso aconteceria se não tivéssemos nos encontrado aqui – esclarece Sâmia. – Moro em Nazaré há algum tempo e o destino armou para que nos víssemos aqui.
- Você é igualzinha nos sonhos! – Fala Pedro.
- Vocês também.
- Sabe por que estávamos à sua procura? – Pergunta-lhe Shalom.
- Sei.
- Há quanto tempo vive na cidade, Sâmia?
- Há sete anos, Pedro.
- Hum! É uma vida... Está disposta a se juntar a nós e cair na estrada?
- Hum! Não!Sim! Talvez... – emociona-se.
- Como é para você deixar essa vida, a casa, a cidade, os amigos e nos acompanhar para encontrarmos os outros três ciganos?
- É constrangedor, pai. Embora eu sempre soubesse que esse encontro iria acontecer um dia, nunca concebi como uma coisa totalmente real. É muito louco estar diante de vocês agora. Durante toda minha vida, eu os vi em sonho. Agora estão em carne e osso. Construí vínculos em Nazaré; apeguei-me ao lugar e às pessoas; resolvi fixar residência, que mesmo sendo alugada, é hoje o meu canto; constituí uma clientela e reconheço ser uma referência naquele lugar para pessoas que me procuram para que eu as ajude a resolver seus problemas. O que será de mim sem essas pessoas? O que será delas sem mim? Ao mesmo tempo em que me reencontrar com vocês é sinônimo de alegria para mim, é também motivo de aflição.
- Tudo é uma questão de escolha, Sâmia.
- Sei, Sofia, mas acho que ainda não estou preparada para escolher. Preciso de um tempo para arrumar as coisas aqui dentro – põe a mão no tórax - De repente, em poucos instantes, tudo o que eu havia traçado está se desmoronando e eu preciso de fôlego e discernimento para fazer as coisas que realmente desejo fazer. Não posso simplesmente alterar minha vida porque estou vendo uma predestinação acontecendo.
- Que tipo de cigana você é? – Inquire Sofia indignada.
- Sou verdadeira e você? – Responde Sâmia calmamente.
- Minha verdade sempre foi, é e será reunir os sete e cumprirmos o que está escrito por nós mesmos.
- E você me perguntou se eu concordava com isso? E o que está escrito não pode ser mudado?
Sofia “perde a chave” e sai aborrecida. Shalom a acompanha.
- Percebo que minha irmã é esquentada.
- Ligue não – diz Pedro em tom conciliador. – Sofia é assim mesmo e eu te compreendo, Sâmia. Teremos que ir vivendo e ver como decidiremos nossas demandas.
- Concordo, pai.

Sofia e Shalom estão na lanchonete:
- Mulherzinha impertinente e metida! – Ralha a cigana.
- Penso que é melhor você se acalmar – Aconselha Shalom.
- Ela se acha muito necessária.
- Troque de lugar com ela. Se você estivesse morando num lugar há certo tempo e chegassem três ciganos lhe chamando para deixar toda a estrutura que você montou, como reagiria?
Sofia pensa, pondera e responde:
- Não é fácil. Irritei-me porque os interesses dela não se mostraram os mesmos que os meus. Conviver com as diferenças e as forças de cada ser humano não é uma tarefa muito fácil.
- Sei que não é...
- Aborreci-me à toa.
- Não. Nada é em vão. Você expressou o que sentia, assim como ela. Agora, reciprocamente, uma sabe o que é mais importante para outra nesse momento e é através do atrito que a gente se alinha e convive.
- Te amo, Shalom! – Ela o beija docemente. – Melhor subirmos. Esse clima é muito chato para permanecer.

Eles sobem e se dirigem ao grupo. Sofia pega nas mãos de Sâmia e olha-a nos olhos:
- Sâmia, desculpe-me pelo mau jeito. Você tem suas razões e eu as minhas. Não vamos mais brigar por isso.
- Sei que a reunião dos sete é primordial para você. Vamos todos juntos solucionar essas questões. Penso que no final, vai dar tudo certo.
Elas se abraçam.
- Vocês estão acampados ou hospedados, lá em Nazaré?
- Eu e Shalom estamos no Pára-Choque do Trevo.
- Eu escolhi acampar perto deles – diz Pedro.
- Minha casa é humilde, mas espaçosa. Tem o meu quarto, a sala, o quarto em que atendo as pessoas e faço os trabalhos e dois quartos vazios. Vou ficar muito feliz se quiserem ser meus hóspedes.
- Eu aceito – fala Pedro.
- Eu também – diz Sofia.
- Então está decidido – conclui Shalom. – Ficaremos com você, Sâmia.
A viagem transcorre em paz. Os ciganos e os gajões brincam e conversam, tomam cerveja, contam histórias e ao chegarem a Vera Cruz, no Terminal de Bom Despacho, despedem-se de Patrício e Marcos, que pegam um ônibus para Amargosa, e seguem para Nazaré.

2 comentários:

  1. Cigana Sâmia chega reinando! Adorei conhecer essa nova faceta de Sofia: intolerância. Isso faz dela um ser mais normal, mais real, mais completo. Suas personagens são equilibradas, ao meu ver. Não há mocinhos e bandidos. Todos têm os dois lados. Embora eu tenha lhe criticado naquela passagem em que Shalom fez o feitiço contra Laudelino e ainda o chantageou, agora vejo com mais clareza as suas intenções subliminares, Aruanda.

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