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terça-feira, 12 de abril de 2011

Sete Ciganos - 54




Ao meio-dia, enquanto a Voz do Cruzeiro toca pelos alto-falantes da cidade o Hino à Padroeira, os ciganos almoçam sentindo o vento varrendo o espaço.

Às 13h45, algumas pessoas começam a se concentrar em frente à casa da cigana. São os clientes e entre eles há os que vêm sempre, há os que vêm pela primeira vez, há os que vêm e voltam, há os que vêm e jamais retornarão. Seja como for, Sâmia está sempre pronta para atender esses indivíduos e ajudá-los no que pode, usando seus conhecimentos e seu amor.

Às 14h00, ela abre a porta da sua casa e recebe os que ali estão com alegria. Dessa vez, os outros ciganos são apresentados aos clientes como seus irmãos e são mui bem acolhidos. Sâmia oferece café, água, suco e doces aos seus visitantes; depois pede licença e se retira para o quarto de atendimento:
- Sofia, vamos comigo?
- Claro – Sofia a acompanha.
Sâmia verifica as flores do ambiente, verifica seus dados, seu jogo de pedaços de espelhos, acende sete velas com as cores do arco-íris, faz uma oração diante da imagem de Santa Sara, acende um incenso de canela, prepara seus cristais, sua bola de cristal, suas cartas e sente um tremor no corpo. Dá as mãos à outra cigana e diz:
- Faça a prece de abertura, Irmã.
Sofia respira fundo e busca no seu interior a inspiração para introduzir uma prática que implica tanta responsabilidade:
- Em nome de Bel-Karrano, de Santa Sara e de todas as forças do Universo, damos por abertos nossos trabalhos, com a finalidade de ajudarmos a nós mesmas e à humanidade. Optcha!
- Optcha!
- Pode ir buscar o primeiro. Hoje você atenderá comigo. Tudo bem?
- Tudo bem. Será um prazer.
Sofia vai fazer o que foi pedido e volta ao quarto com uma moça negra, bela e viçosa.
Os ciganos ficam na sala de estar entretendo as pessoas com sua boa conversa e presença agradável.
Sâmia se ergue e recebe a cliente com um abraço afetuoso. Depois as três se sentam, as ciganas de um lado da mesa e a consulente diante delas:
- Como se chama, minha filha? – A dona da casa pergunta à jovem.
- Tamires – responde nervosa.
- É a primeira vez que vem aqui, não é?
- Sim.
- Quem te indicou?
- Uma amiga minha. O marido dela deixou de ser alcoólatra depois que veio aqui e ela disse que a senhora resolve qualquer parada... Foi por isso que vim.
- Que responsabilidade, heim Sofia! – Brinca Sâmia.
- Costas largas – responde a cigana e as três riem. Tamires se sente mais à vontade.
- Não faço milagres, minha menina. Não sou santa. Só sou uma cigana e tenho alguns conhecimentos e é através deles que procuro ajudar as pessoas, mas não se iluda. Há casos que não estão em minha alçada e quando isso acontece, encaminho a pessoa para minha amiga que mora aí do lado. Ela é Mãe-de-Santo e se chama Dona Lurdes. Tudo bem?
- Tudo bem, mas tenho fé que a senhora vai resolver meu problema.
- Não. Quem vai resolver seu problema é você. Eu só vou lhe ajudar como fazer isso. O que lhe aflige, Tamires?
- Não consigo emprenhar. Estou casada há seis meses, meu marido é doido pra ter um filho, a gente está fazendo de tudo, mas não estamos tendo sorte. Eu também quero muito ter um bebê, mas está difícil.
- Já foi a um médico?
- Preferi vir aqui antes.
- Quanta honra! – brinca a cigana.
Sâmia respira fundo, se concentra e tem um calafrio. Olha na bola de cristal com a visão desfocada e pede para Sofia anotar as coisas que ela vai dizer num bloco de papel:
- Tamires, seu ovário é policístico e isso pode ser a causa do impedimento à sua gravidez, mas vamos solucionar esse senão. Deixe-me ver... – A cigana se concentra mais profundamente na bola de cristal. – Preste atenção: no terceiro dia de Lua Crescente – Sofia anota – três dias antes de menstruar, ferva água em quantidade e depois coloque pétalas de rosa branca. Quando o preparado estiver frio, tome uma xícara dele e o que sobrar, divida em três partes e jogue em seu corpo. Para cada dia, será um banho. Então serão três banhos. No espaço de tempo entre o dia que você fizer o trabalho até três meses, você vai engravidar.
- Ô cigana, tomara!
- Acredite em você e faça o que eu orientei. No que mais posso te ajudar?
- Por hoje é só... Estou tão emocionada! É... Quanto custa a consulta, cigana?
- Quando você emprenhar, retorne aqui e traga o que sua consciência julgar que vale o meu trabalho e o benefício que ele lhe causará.
- Está bem, cigana, muito obrigada.
- Quem agradece sou eu, menina. Cuide-se!
Sâmia se despede de Tamires com um abraço. Sofia também abraça a consulente e a conduz para fora.
Quando Sofia e Tamires chegam à sala, a conversa está bem animada e ela chama o próximo consulente, que é um homem moreno, magro e pálido, com feições doentias.
Ao chegarem ao quarto, Sâmia saúda o cliente:
- Seu Domingos, quanto tempo!
- Como vai, Dona Sâmia? Estou vendo que as coisas aqui estão mudadas... A casa já era aconchegante, mas agora está mais alegre, mais florida.
Sofia sorri.
- Pois é, Seu Domingos, meus irmãos ciganos estão comigo, me ajudando na lida. Esta é Sofia.
- Prazer, moça bonita – ele pega na mão de Sofia e a beija.
- Vá devagar, Seu Domingos, que a moça é comprometida e o cigano dela é brabo.
- Que é isso, Sâmia? – Brinca Sofia – Ele só está sendo gentil.
- Eu conheço meu gado, Sofia. Se você der um dedo a esse aí, ele já quer o corpo todo.
Os três riem e se sentam.
- Como vai, meu amigo? – Pergunta-lhe a loira.
- Assim, assim... Vim aqui para acertar sobre aquele trabalho que a senhora fez para mim – ele lhe entrega um envelope e ela o recebe, pondo-o numa gaveta, sob a mesa.
- Então deu certo?
- Como sempre.
- Que bom, mas estou percebendo que o senhor está um pouco abatido.
- Pouco não. É muito. Peguei uma gripe que quase me matou e até hoje não melhorei. Uma tosse que não acaba mais. Um cansaço, uma falta de vontade...
- Hum! Quer dar uma olhada nele, Sofia?
- Sim.
Sâmia coloca a bola de cristal diante de Sofia:
- Toda sua.
- Obrigada.
Sofia se concentra e olha na bola. A visão desfoca...
- Vejo que o senhor já teve uma pneumonia e não a tratou como deveria. Tem uma mancha no pulmão. Fuma?
- Já fumei muito, mas fiz um trabalho com Dona Sâmia e larguei.
- Seus pulmões são fracos e, além disso, vejo sua energia baixa. Olho grande.
- Quer que eu pegue arruda no quintal? – Sâmia indaga a Sofia.
- Sim.
A loira se levanta e vai pegar as folhas.
- A senhora também vê direitinho!
- Vou lhe rezar com arruda, mas precisaremos fazer uma garrafada para tratar esses pulmões.

A loira retorna com as folhas e coloca-as sobre um tamborete, sentando-se no seu lugar.
- Sâmia, precisaremos fazer uma garrafada para ele – fala Sofia.
- Diga os ingredientes que eu anoto.
Sofia se concentra na bola e recebe, dentro da cabeça, a orientação:
- Precisaremos de vinho branco seco, um pedaço de marmelada, um ovo de pata, erva-de-passarinho, saião e assapeixe.
Sâmia termina as anotações e entrega o papel a Domingos:
- Providencie isso, Seu Domingos, e mande ainda hoje para cá, a fim de que Sofia faça logo sua garrafada.
- Ela é quente, não é? Danada igual a senhora!
- É que viemos da mesma estrela – diz Sâmia.
Domingos ri do que ele julga ser uma brincadeira:
- Quando eu vier pegar a garrafada, trago a encomenda.
- Está certo, Seu Domingos. O senhor é da casa – diz Sâmia.
- Agora vamos lá fora, meu amigo – fala Sofia – Vamos tirar esse olhado.
Domingos se despede da outra cigana, que olha para Sofia e pisca o olho em sinal de aprovação pelo Dom que esta tem. 

3 comentários:

  1. A cada capítulo, conheço mais de você, Cigano. Sem puxar seu saco, porque detesto isso, és uma enciclopédia ambulante.

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  2. Seu Aruanda, to aqui todo dia, é que estou lendo os capitulos na sequencia, leio 5 por noite, isso me consome,,, kkkkk Nem terá tempo de sentir minha falta não viu!!! bjão

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  3. Oh! Glória. Que Santa Sara te abençoe, Poetisa.
    Valeu, Diana...Sinto-me honrado...

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