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quarta-feira, 13 de abril de 2011

Sete Ciganos - 55




No final da tarde, já não há mais cliente algum e os ciganos descansam no quintal, tomando suco de graviola:
- Sâmia – fala Sofia – pude ver de perto como o seu trabalho é importante para as pessoas daqui. Pude constatar a importância que você tem na vida dessa gente. Assim como meu objetivo é juntar os sete, sei que o seu é ajudar aos que lhe procuram. Sei que pode fazer isso em qualquer lugar, mas aqui está sua marca e quero que você se sinta bem livre para decidir entre seguir viagem conosco ou permanecer nessa cidade.
- Minha irmã, o pior é que agora estou dividida. Gosto muito daqui, mas não sei se saberei viver sem vocês.
- Há tempo para se decidir – diz Shalom. – Não partiremos amanhã. Acho bom ficarmos por aqui uns dias.
- Também acho – concorda Pedro. – Estou gostando daqui. Vou preparar uma sopa e café para nós.
- Boa ideia! – Louva Sâmia.
Pedro solta um flato sonoro e todos riem.

Na manhã seguinte, Sofia leva os ciganos à casa de Mãe Lurdes.
Ela é uma senhora negra, alta, forte e tem um olhar amável e sagaz. Recebe a todos com um sorriso terno e bem se vê pelos modos, que é bem hospitaleira e sabe como conduzir uma boa conversa.
É um dia de quinta-feira e ela está usando um vestido verde em homenagem a Oxossi.
Quando os ciganos entram em seu Centro Umbandista, veem quadros de Orixás, Caboclos, Pretos Velhos, Entidades Ciganas e o nome local pintado em letras garrafais na parede frontal: CARAMANCHÃO DE IANSÃ GUERREIRA.
Todos estão acomodados em assentos simples, mas confortáveis na sala de estar:
- É um prazer para mim, conhecer os amigos da minha amiga. E se são amigos dela, são meus também. Quanto tempo pretendem ficar?
- Não sabemos ainda – responde Sofia. – Depende de muitos fatores, decisões...
- A vinda de vocês aqui a Nazaré tem um motivo específico, não é?
- Sim, Mãe Lurdes – responde Shalom.
- É o que estou pensando, Sâmia?
- Sim, Mãe. Finalmente o dia do reencontro chegou.
- Eu lhe disse que ia acontecer! – Exclama a Sacerdotisa excitada.
- Preferi pensar que nunca aconteceria.
- E fugir do seu destino, cigana?
- Tudo isso está me deixando em dúvida.
- No seu lugar eu também ficaria. E de minha parte, assumo que me incomoda saber da possibilidade de você nos deixar. Ao longo desses anos me apeguei a você e prezo muito nossa amizade. Um lado meu deseja que você parta e seja feliz com seu povo, mas me entristece. O outro, quer que você permaneça feliz aqui e isso me alegra. Porém a decisão cabe exclusivamente a você.
- Podemos avaliar a angústia na alma de Sâmia – diz Pedro. – E por já amá-la, estamos prontos para acatar qualquer que seja sua decisão. Enquanto ela não decide, ficamos e aprendemos.
- Como também me ensinarão – diz Mãe Lurdes. – O Povo Cigano me fascina desde criança. Em minha fantasia, eu sonhava em ir embora com os ciganos e rodar o mundo, mas a minha missão me levou por outros caminhos e aqui estou, plantada. Quando Sâmia apareceu aqui, eu sabia que Iansã estava me mandando um presente.
- Eu também sabia que estava recebendo um – diz Sâmia.
- Uma coisa que muito me interessa – prossegue a Mãe de Santo – e nunca tive a oportunidade de conversar com Sâmia, é sobre as origens e a história do povo cigano.
- É uma coisa que nem nós sabemos – fala Pedro com um tom entre a seriedade e a comicidade, fazendo todos rirem. – Verdade... São muitas versões, muitas fontes. Sempre viajamos e enquanto acampávamos na Europa lá pelos idos de 1300, fazíamos questão de manter nossas tradições, nossos costumes, nossa língua e hábitos sob o véu do oculto.
- E por que, cigano Pedro? – Questiona Mãe Lurdes.
- Para nos proteger. Em torno disso, foram criadas muitas lendas sobre nossa origem e história e a gente nem dizia que eram reais, nem diziam que era mentira. Essa aura de mistério sempre foi para o nosso povo, um escudo protetor. Entre os séculos XV e XVI, proliferamo-nos pelo continente europeu e logo depois, pelo mundo.
- Mas como tudo começou? – Pergunta a Sacerdotisa.
- Dizem que somos remanescentes de Atlântida, o continente perdido. Muitos dos Atlantes morreram no cataclisma, mas muitos conseguiram escapar e se assumiram como a raça nômade, a raça sem pátria, a raça de todas as pátrias. Outros dizem que tudo começou no Egito. Outros que foi na Índia, na Romênia, na Hungria, na Península Ibérica, na Tunísia e em milhares de lugares. Nada é certo e eu não estou nem aí para isso, Mãe Lurdes. Há ainda os mais loucos que dizem que viemos das estrelas... Há coisas em que o mistério toma conta de tal forma que fica difícil localizarmos a verdadeira fonte, se é que ela existe mesmo.
- E o que levou as pessoas a lhes atribuírem tantas gêneses?
- Mãe Lurdes – continua Pedro – penso que as línguas, os tipos físicos e nossos afazeres foram dando indícios. Esse assunto tem um forte teor hipotético. Tem gente até que nos considera descendentes dos primeiros judeus... É muita história, minha senhora.
- Existem documentos que comprovam a passagem do nosso povo pela Europa no século XIX – informa Shalom.
- Dizem que depois que saímos do nosso suposto país natal, ficamos na Pérsia por muito tempo, mas invasões e guerras nos fizeram fugir de lá no século XIII – fala Sofia.
- Mas ainda há aquela teoria de que nos dividimos em dois grupos e nos espalhamos em duas direções – complementa Sâmia; - uma a oeste e outra, ao sul da Europa. A primeira, pendeu para as bandas gregas e entrou em contato com Áustria, França, Boemia, Rússia, Alemanha, Hungria e Suíça. A outra passou pela Palestina, Síria e Egito. Seja como for, em cada lugar que passamos, vamos nos enriquecendo pela cultura que ele tem.
- Sofremos muitas descriminações, castigos e maus tratos – fala Sofia comovida. – Éramos considerados seres malignos por muitas pessoas, mas sempre fomos um povo forte. Quanto mais nossos opositores se esforçavam para nos banir do planeta, mais forças ganhávamos para resistir e permanecer colorindo o mundo.
- Vocês têm uma força e uma herança espiritual muito grande – diz Mãe Lurdes – como a raça negra. A tirania dos que nos consideravam seres sem alma não foi o bastante para permanecer nos escravizando. Sei que ainda hoje, aqui e ali, há o câncer da segregação racial, mas rejubilo quando vejo tantas conquistas que são fruto da nossa luta ao longo da história. A liberdade dos guetos não nos satisfaz mais. Queremos a liberdade dessa grande aldeia planetária.
- Afinal – comenta Pedro – somos gente e só isso é o que importa.
- Concordo, irmão – diz Mãe Lurdes apertando a mão do cigano e enxugando os olhos por ter se emocionado.
Pedro retribui o carinho da honorável senhora, abraça-a e beija sua mão, que demonstra sinais de muito trabalho com o viver dos anos.
- Mas deixando os sentimentalismos de lado – reinicia a dona da casa – Quando vieram para o Brasil?
- Oficialmente, segundo os anais da história – fala Pedro forjando uma postura acadêmica que faz os outros rolarem de rir – o primeiro cigano aqui chegado, nesta terra onde tudo dá, se for plantado – imita o sotaque português – foi um certo João Torres, no ano de 1574. É lógico que não chegou aqui como herói ou rei, mas como bicho degredado, condenado pela ridícula igreja e monarquia portuguesa. Depois muitos outros começaram a ser banidos para cá e assim marcamos o Brasil com nosso poder. Aqui chegamos como marginais e desde então, enquanto uns de nós optaram realmente por negócios escusos, como toda gente, outros cresceram em dignidade e força, como toda gente.
- E qual é a situação do povo cigano no Brasil, atualmente, cigano Pedro?
- Temos dois grupos, Mãe Lurdes. O Calon, que compreende os ciganos descendentes da Península Ibérica e o Rom, que são os ciganos descendentes dos húngaros, romenos, gregos, turcos, iugoslavos e outros. Há também ciganos provenientes da França, Itália e Alemanha, que se dedicam às artes e à vida circense e constituem o grupo dos Manusche. Muitos continuam nômades, muitos estão sedentários; uns mantém os costumes e as tradições do nosso povo com mais afinco, outros, não estão ligando; uns estão entrando nas universidades e no mercado de trabalho disputando vagas com gajões de igual para igual e nessa onda, tem gente que nega as origens, mas tem gente que se assume até o fim. Continuamos, em suma, sendo um povo religioso, devoto de Santa Sara e quem mais chegar, cheio de mistérios e histórias. Lemos mãos, jogamos cartas, fazemos artesanato, fazemos magia, casamento, enterro, festa; apreciamos boa comida e boa bebida; vivemos de circo, vivemos de comércio, vivemos amores e paixões, amamos a música, o violino, o violão, o flamenco, a música regional, enfim, continuamos acesos na roda da vida.
- É muito interessante! – Exclama a senhora e pára silenciosa por alguns instantes – E o culto a Santa Sara?
- Diferente do que a Bíblia e a tradição religiosa cristã ocidental têm ensinado, sabemos que Jesus nunca morreu numa cruz. Ele foi tirado de lá com vida, foi tratado e como era insustentável para ele e sua família permanecerem no oriente, vieram para a Europa. Sabe-se que Ele, Maria Madalena, sua mulher; Maria, a mãe; José de Arimatéia, o irmão; Lázaro e Marta, os cunhados e mais uma pessoinha aportaram em Saintes-Maries-de-la-Mer. Essa pessoinha que falo era Sara, a filha de Jesus com Madalena. Sara surge na história como “a escrava negra” ou “a madona negra” não por pertencer à raça negra, mas pela necessidade da igreja de ocultar sua verdadeira identidade e despistar a atenção das pessoas para o que chamamos de Santo Graal, ou seja, a descendência genética de Jesus, o Cristo. No dia 24 de maio há uma grande festa no delta do rio Ródano e em algumas comunidades ciganas. Lá em Saintes-Maries, as imagens das Madonas são levadas pelos ciganos e cavaleiros-guardiões. Há festa, oração, peregrinação, música, reencontro, manifestação de fé e esperança; mentiras e verdades em torno de uma tradição.
Quando a Família de Jesus chegou naquelas bandas, construíram um oratório. Muitos anos depois, quando Sara morreu, foi sepultada no oratório, junto com restos mortais de outros parentes. Aí no século IX, construíram uma igreja no lugar do oratório. Em 1443, as relíquias foram encontradas e houve uma cerimônia mui pomposa com uma corja de gente importante e fina e como os ciganos estavam ajudando na reforma do templo, colocaram junto às relíquias, um sarcófago antiquíssimo que trouxeram do Egito e um altar do Deus Mitra, sem que os cristãos se dessem conta. A egrégora dos ciganos foi estabelecida e energeticamente o templo é muito mais cigano do que católico...”
- Por isso, Mãe Lurdes – conclui Pedro – adoramos Santa Sara, mas nem todos sabem dessa história.
- Cigano Pedro – diz a Sacerdotisa com uma seriedade afetada e cômica – O senhor é um homem perigoso.
Todos riem e ela gargalha.
- É um homem admirável – continua Mãe Lurdes. – É muito bom conversar com gente como o senhor, como vocês.
- Obrigado, Mãe Lurdes – agradece o cigano. – Não é a todo mundo que me sinto à vontade para contar essa história, mas senti que deveria contar-lhe.
- Agradeço pelo privilégio.
- Por acaso isso lhe trouxe algum desconforto?
- Absolutamente. Sou uma mulher livre, cigano. Estou aberta a renovar-me sempre, apesar das minhas rugas, que por sinal, carrego com muito orgulho.
- Foi o que pensei.
Durante toda a manhã, os ciganos e Mãe Lurdes conversam animadamente sobre cultura cigana e africana, trocando saberes e curiosidade.
Depois ela os convida para almoçarem consigo e um lauto banquete é servido. Um dos filhos de Mãe Lurdes empresta o violão a Shalom e ele toca e canta em homenagem a anfitriã. Pedro também o faz.

3 comentários:

  1. Agora sei quem é esta Santa Sara que os ciganos falavam, rsrsrs.

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  2. Tá vendo aí, Lore? A galera não é fraca não(risos).

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  3. Menino! Que babado é esse? Aruanda, você não é mole, viu? Gosta de cutucar o cão com vara curta, não é, seu doido? Parabéns pela coragem.

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