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domingo, 24 de abril de 2011

Sete Ciganos - 63



Ao final da cerimônia, os ciganos vão ao encontro do outro desconhecido. Quando o cigano se depara com os outros, esboça um sorriso infantil, abre os braços e diz:
- Nossa Senhora da Purificação ouviu minhas preces!
Os outros ciganos se regozijam com a acolhida do “irmão”. Eles se abraçam e comemoram o encontro:
- Como se chama, filho? – Pergunta-lhe Pedro.
- Antonio, o rei da prata e do ouro. Até que enfim vocês chegaram! Não sabia mais onde procurá-los! Vamos celebrar esse momento.
Saem da igreja e vão a um bar.

- Está há quanto tempo aqui, cigano Antonio? – Questiona-lhe Sofia.
- Há dois meses. Compro e vendo ouro e prata. Tenho até uma musiquinha: “Eu vendo prata, eu compro ouro, cigano Antonio é o dono do tesouro...”.
Os demais riem.
Shalom percebe olhares maldosos de dois homens destinados a um idiota que está embriagado. Sente que eles farão alguma injúria ao coitado. Antonio capta o sentimento de Shalom e observa os dois; pede ao companheiro que esperem para agir. Os cinco ciganos estão alerta com relação à cena.
Os dois homens se levantam e vão à mesa em que o ébrio está debruçado e na hora em que o gordo ia dar um cascudo no infeliz, Antonio rapidamente se ergue com uma adaga na mão direita e os ameaça:
- Voltem imediatamente ao lugar de onde vieram e nada de mal vai lhes acontecer.
As pessoas do bar se apavoram e se afastam. O dono se acovarda e não tem coragem de intervir. Afinal há ciganos envolvidos...
- Quem é você para falar assim conosco? – O magro puxa um revólver da virilha e aponta para Antonio – Não tenho medo do seu canivetizinho.
- Nem eu da sua pistola de brinquedo – provoca Antonio.
- Vamos embora, Túlio! – Diz o gordo, temeroso.
- Tá com medo do cigano, gordo? Se ele é macho, eu também sou.
Num átimo, Antonio mira a adaga na arma do adversário e a arremessa, arrancando-a. O revólver cai no chão, dispara um tiro, mas fere ninguém.
O idiota desperta com o susto:
- Que é que está acontecendo aqui?
E volta a dormir na mesa.
Todos se surpreendem com a precisão do arremesso de Antonio. Túlio também e fica sem ação.
- Pega a arma e vamos embora, Túlio! – Fala o gordo.
- Qual é, Fábio? – Retruca Túlio, tentando disfarçar o nervosismo – Agora que a festa começou.
Túlio olha Antonio de forma desafiadora e seu corpo todo se arma para a luta:
- Não quero brigar com você, rapaz – fala Antonio. – Minha intenção foi só impedir que vocês perturbassem o cara. Vamos parar com isso. Vá embora e não pioremos as coisas.
- Não sou homem de fugir de briga, cigano!
- Mas eu sou quando a briga não tem sentido.
- Você não passa de um covarde!
- Posso até ser se não ver motivo algum para continuar lutando.
- Já vi que você é bom na faca. Será que também é bom no punho?
- Melhor pararmos por aqui, amigo.
- Não sou seu amigo.
- Mas eu não sou seu inimigo.
- Filho da puta!!!
Túlio parte para cima de Antonio e ao tentar lhe desferir um soco, o cigano se defende.
Irritado, o agressor investe com pontapés, mas o cigano, com mestria e calma, consegue neutralizar os golpes dele.
Possesso, Túlio quebra uma garrafa e com ela na mão ameaça o cigano. Ao irromper contra Antonio, o mesmo tira o corpo, Túlio desequilibra e cai.
Depois pega uma cadeira e a atira no cigano. Nesse momento, Antonio é atingido e Túlio consegue chegar rapidamente perto dele e desferir-lhe um murro. Antonio fica zonzo, mas tem reflexo suficiente para evitar um novo golpe do inimigo e inutilizá-lo com um chute no saco.
Túlio cai no chão se contorcendo de dor. Sofia recolhe a arma de Antonio e Fábio, a de Túlio. Nesse momento a polícia chega e os ânimos começam a se aclamar. O dono do bar começa a relatar o ocorrido sem mencionar as armas dos envolvidos, temendo complicar as coisas para o cigano, com quem simpatizara.
- Mas avisaram que houve um tiro – fala um dos policiais.
- Houve tiro nenhum – fala o dono do bar – o povo adora botar lenha na fogueira. Veja o senhor mesmo: não tem ninguém baleado nem vestígios de bala por aqui.
O proprietário do estabelecimento estaria em maus lençóis se os policias fossem peritos ou quisessem investigar a veracidade da sua declaração.
Por ter porte ilegal de arma, Túlio também silencia sobre a sua.
Os envolvidos na contenda são levados à delegacia. Os ciganos e Fábio também vão, não sem antes de esconderem as armas em locais seguros.
Túlio recebe mais uma advertência do delegado, que é um homem negro e forte, e fica detido só por essa noite, pois é recorrente em brigas e desordens. Depois a autoridade interroga o cigano:
- Como se chama, cigano?
- Antônio.
- O que fazia no bar?
- Comemorava o reencontro com meus amigos ciganos após a novena?
- O que fazem aqui?
- Estamos de passagem, delegado. Viemos ver a festa. Nada de mais.
- Onde tem cigano, tem confusão.
- Eu não podia deixar aqueles dois tripudiarem do moço bêbado.
- E isso era da sua conta?
- Era. Desde que não havia nenhum policial lá, nem o senhor para oferecer segurança a um homem indefeso.
O delegado olha-o admirado:
- O senhor é um homem ousado, Sr. Antonio. Não se esqueça de que está diante de uma autoridade. Não admito que me desacatem.
- Não quis desacatá-lo, Sr. Delegado. Só expressei a realidade. Se fui mal entendido, perdoe-me.
Ambos se encaram. O delegado ri e acende um cigarro:
- Fuma, cigano?
- Não, obrigado.
- Gostei de você, cabra! Gosto de gente como você. Aquele cara é um desordeiro imbecil. Há muito que tenho vontade de dar uma surra nele e acho que você o pegou de jeito, mas é bom ter cuidado. Túlio é mal-caráter e vingativo. Enquanto você estiver aqui, ele vai encher seu saco.
- Se preocupe não, amigo. Eu dou meu jeito.
- Fique longe de confusão, cigano.
- Como posso se ela me persegue?
Os dois riem.
- Pode ir, Antônio, e obrigado.
- Obrigado ao senhor, delegado.
Apertam-se as mãos:
- Dispenso essas formalidades quando estivermos a sós. Pode me chamar de Ferreira. Conheço alguém na primeira conversa. Sei que você é gente boa.
- Até a vista, amigo!
Antonio se levanta e se dirige à porta. Antes de chegar, porém, Ferreira o chama novamente:
- Cigano.
- Sim?
- Só mais umas perguntinhas?
- Manda.
- Cadê sua adaga?
- Não tenho adaga, amigo.
- E o revólver do desordeiro?
- E ele estava armado?
O delegado sorri sarcástico:
- Você tem estilo até para mentir, cabra da peste! Mas saiba que tenho muitos olhos e minhas feitiçarias também. Vai-te embora!
Os dois riem e se despedem.

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