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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sete Ciganos - 67




Antonio rasga a camisa da vitima e vê o buraco causado pela bala no meio do tórax. Concentra-se, faz suas preces e pega a adaga. Suas feições se transformam. Uma gravidade maior toma conta do seu semblante. Ele olha o lugar onde a bala atingiu e com destreza, desce a faca e tira o projétil do tórax de Túlio. A dor é tão lancinante, que a vítima não aguenta e desmaia novamente.
Com a testa molhada de suor, Antonio dirige-se a Pedro e Sâmia:
- Curandeiros, façam a sua parte.
Depois a Shalom e a Sofia:
- Feiticeiros, espantem os espíritos perturbadores que esse moço procurou por companhia.
O círculo se desfaz. Os ciganos solicitados correm para onde estão seus pertences e procuram unguentos, ervas, outros produtos medicinais e objetos de poder.
Cada qual, na sua especificidade, trabalha no sentido de restabelecer o rapaz, enquanto Antonio toma um cálice de vinho e limpa a adaga.

Amanhece.
Os ciganos, exceto Antonio que vela o enfermo, dormem.
Túlio abre os olhos:
- Que aconteceu? Onde estou?
- Calma! Você está entre amigos e em minha tenda.
- O tiro!
Antonio mostra-lhe o projétil:
- Já tirei a bala. Você não corre mais perigo de vida.
- Você me salvou!? – O jovem engole em seco – E eu queria te matar...
- Coisas da vida.
- Cadê minha arma?!
- Não sei, irmão. Deve ter se perdido na confusão.
Túlio começa a chorar arrependido.
- Poupe-se. Você está fraco, Túlio. Culpa já não é uma coisa boa. Ainda mais quando se está recém baleado.
- Por que sou assim? – Pergunta o jovem.
- Cada um é como é; cabe a quem quiser, se melhorar.
- Por que me salvou, cigano? Para me humilhar?
- Não. Para fazer de você, meu amigo.
Túlio fica envergonhado com a própria grosseria e decide se desculpar:
- Me perdoe, cigano Antonio.
- Tá perdoado, mas vou ficar de olho em você. Chega de arrumar confusão, amigo. Isso não leva a nada
- Você tem razão... Quando vejo, já fiz a merda e não tem como voltar atrás.
- A partir do que aconteceu ontem, comece a ser sensato e pense ante de agir, caso queira continuar vivo.

Mais tarde os ciganos e Túlio conversam animadamente, mas ele fica apreensivo:
- Que passa, Túlio? – Pergunta-lhe Antonio.
- Minha mãe deve estar louca querendo saber de mim.
- Como ela se chama? – Fala Sofia.
- Elpidea.
- A senhora que cuida da Capela de Santo Amaro?! – Questiona Antonio emocionado.
- É! Como sabe, cigano?
- Ela nasceu em Maragojipe?
- Com certeza. É minha mãe.
- Nós a conhecemos. Ela nos contou a história da cidade! É uma criatura muito simpática.
- Já causei tanta dor em Dona Elpidea.
- Acho que é hora de reparar suas besteiras, homem. Vamos levá-lo para casa. Estivemos com ela e ela nos disse que a sujeira do rio a entristecia, mas também havia uma pessoa que causava isso nela, só que não quis se abrir naquele momento. Senti compaixão da sua mãe e quis, do fundo do meu coração, ajudá-la e eis que o destino nos coloca inicialmente como adversários e agora, como irmãos. Tudo no Universo está interligado, menino Túlio. Estamos conectados com tudo então para que brigarmos à toa, para que agredirmos o próximo e causarmos dor a quem mais nos ama com nossos comportamentos sombrios?
- Vamos, amigos! Eu preciso tranquilizar minha mãe.

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