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domingo, 19 de junho de 2011

Sete Ciganos - 83


No dia seguinte, não se fala em mais nada na cidade e regiões circunvizinhas além do episódio do circo. Diego e Magnum fazem os acertos para levarem os animais para o Safári e encaminharem o leão a um veterinário. Muitos dizem que o acontecido não passou de uma encenação que fazia parte do espetáculo. Outros começam a ver em Daniel uma espécie de Messias e passam a se organizar para visitarem o ciganinho e ouvirem suas palavras e presenciarem seus milagres.
Filas e mais filas se acumulam na frente do circo e Diego está tenso; não sabe o que fazer:
- Acalme-se, marido – diz Rosita – tem que haver uma solução.
- Quero proteger Daniel!
- De quê?!
- Dessa gente maluca que pensa que meu filho é um... Não sei o quê...
- Eles vieram buscar o auxílio dele. Ele pode ajudá-los.
- Isso pode virar fanatismo! Você não percebe? Todo mundo quer um salvador e não quero que transfiram essa loucura para meu filho.
Daniel entra no trailer no momento:
- Concordo com você, pai. Não estou aqui para salvar ninguém além de mim mesmo.
Diego pára uns instantes e tem um insight:
- Já sei! Saia pelos fundos com ele e leve-o à casa do padre Altino. Peça para que ele e os ciganos protejam Daniel.

Rosita faz o que o marido pede, conduzindo o filho de carro, sem maiores problemas e volta ao circo.
 As pessoas não arredam o pé. Querem a qualquer custo falar com o “Encantador de Leões”, como começa a ser chamado e todos do circo temem essa avalanche que se abate sobre eles.

- Aquilo foi impressionante! – Diz o sacerdote.
- Pois é, e eu sei que toquei as pessoas de alguma forma. Elas precisam de nós e penso que enquanto ainda estivermos aqui, temos que ajuda-los, só que não posso fazer isso sozinho. Preciso da força de vocês no sentido de auxiliar aquelas pessoas a curarem suas próprias dores. – Fala Daniel.
- O que tem em mente? – Pergunta Zenaide.
- Transformar o circo numa imensa tenda mística.
- Menino, você é louco! – Comenta Sofia – E seu pai?
- Mais cedo ou mais tarde ele entenderia... O problema é que não temos muito tempo.
- É bom que relaxemos agora – sugere Sâmia. – Os últimos acontecimentos mexeram com todos nós. Vamos desacelerar e deixar a coisa seguir seu rumo natural.
- Concordo – diz Shalom – Esse ciganinho é danado.
Todos riem.
- Então vamos mudar o foco – propõe Pedro – Padre Altino, fale-nos de Feira de Santana.
- É uma cidade em franco desenvolvimento. Aqui não pára e é um grande centro comercial e acadêmico.
- E de onde vem o nome da cidade? – Pergunta Antonio.
- Lá pelos idos do século XVIII, sob as invocações de São Domingos e de Senhora Santana, foi erguida uma capela no interior da fazenda Olhos d’ Água, que deu origem a um povoado que mais tarde foi chamado de Santana de Feira. Aí em 1833, botaram o nome de Feira de Santana e ficou até hoje. Que tal darmos um passeio, para conhecermos melhor a cidade e espairecermos – Fala Altino.
- Acho ótimo!- Exclama Daniel, pondo-se de pé.

Os ciganos saem em seus carros. O padre Altino vai com Shalom e Sofia e Daniel, (que usa boné para não ser reconhecido) com Pedro e Zenaide. Passam pela prefeitura, pelo hospital, pelo parque de exposições, por várias praças, pela Universidade Estadual da cidade; visitam o aeroporto, a rodoviária, o Centro de Cultura Amélio Amorim e o Cinema.
Depois retornam à casa do padre, onde conversam sobre a Pastoral do Nômade com outros ciganos e almoçam.
Mais tarde, Daniel telefona para o pai:
- Pai, sou eu.
- Diga, meu filho... – Diego está cansado.
- Como estão as coisas aí? Já posso voltar?
- As pessoas não arredam o pé. Não sei mais o que fazer. Chamei a policia, mas está todo mundo em ordem, cantando, rezando...
- Não vejo outra alternativa senão receber essas pessoas.
- Temo isso. Você sabe.
- Sei, mas não vejo outra solução. Vou levar meus amigos ciganos. Juntos, veremos o que fazer. Estamos indo para aí agora.
- É... Acho que você tem razão. Venham.

Os ciganos chegam ao circo pelos fundos.
Diego, Rosita e os artistas do circo recebem-nos aliviados.
- Que você pretende fazer, Daniel? – Pergunta-lhe o pai.
- Vamos atender algumas pessoas, individualmente. Não quero formar nenhuma igreja nem maluquice de massas. Vou chegar lá fora e falar com a multidão. Distribua ingressos pela ordem de chegada na fila, não esquecendo as prioridades, e vamos ver o que acontece.
A criança sai e todos ficam impressionados com sua maturidade e senso de organização.

Daniel chega do lado de fora e é ovacionado pelas pessoas durante alguns minutos. Em seguida, pede silêncio e é atendido:
- Não coloquem em minhas mãos e nas dos meus irmãos ciganos o direito de decidirmos o destino de vocês. Se fizerem isso, vão se decepcionar, porque não estamos aqui para controlá-los, mas para ajudá-los a fazerem o melhor por si mesmos. Não somos profetas, não queremos fundar religião alguma, nem queremos seguidores. Cada um de nós tem seu próprio caminho, ainda que decidamos andar em bando. A partir de hoje, até o dia 20 de março, este circo se tornará uma Grande Tenda Mística, eu e meus amigos ciganos e quem mais quiser se predispor a trabalhar seriamente a fim de ajudar a humanidade, estaremos à disposição de todos vocês. E como tudo na vida tem um preço e meus pais e os artistas do circo precisam de dinheiro e os demais funcionários necessitam de dinheiro para viver, será cobrado de cada pessoa o valor normal dos ingressos que cobraríamos para um espetáculo. Hoje atenderemos até a meia-noite, de graça. Amanhã e nos dias seguintes, começaremos das 09h00 às 12h00 e das 14h00 às 18h00 e será pago. Paz e Amor para vocês!
Todos aplaudem o menino e ele volta para o interior do circo. Diego está aflito:
- Danielzito!...
- Calma, pai! Vai dar certo. Durante esses dias só será impossível rolar as matinês, mas como terminaremos os atendimentos às 18h00, teremos tempo de fazer os espetáculos às 20h00, como sempre, e te garanto uma coisa: nossos atendimentos darão mais dinheiro do que as matinês – Daniel teve de usar esse argumento pois sabe quanto o pai preza a energia monetária.
- Duvido! – Fala Diego aborrecido.
- Quer apostar?
- Não. Eu sei que quando você fala, acontece.

Ingressos são distribuídos, improvisa-se no picadeiro um local para atendimento com mesas e cadeiras, os ciganos se concentram e começam a receber as pessoas.
As mais diversas situações, os mais diversos problemas são apresentados aos ciganos e cada um oferece a cada consulente uma forma sábia e amorosa de cura.

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