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sábado, 6 de outubro de 2012

A Morte e seu Trottoir


E depois de um tempo sumida, a amiga morte volta a fazer seu trottoir em minha vida. Dessa vez sua visita me levou Bárbara, minha amada gatinha.

Bárbara estava há cinco anos conosco. No tempo em que vivemos em Areias, ela nos chegou pequena e fofinha. Soubemos que sua dona a havia rejeitado porque emprenhara de um gato vadio. Nós a acolhemos prontamente. Vermifuguei-a, vacinei-a, despejei as pulgas e ela quis ser nossa. Tempos depois, nossa filha pariu mais três que foram adotados meses mais tarde por uma amiga.

Bárbara ficou conosco. Sempre dócil, sempre quieta e quase sempre depressiva e medrosa. Quiçá pelas violências sofridas na rua e na casa em que vivia antes ser acolhida por nós. Nosso amor, com o tempo, foi atenuando os efeitos que a dureza causou em nossa menina.

Ela possuía uma mania fantástica de deitar sobre meu respeitoso abdome ou o da minha companheira Maci e ficar por horas ou a olhar para nós com aqueles olhos silenciosos e profundos, ou a dormir o sono dos que confiam e se entregam.

Há dois meses, porém, nossa filha adoeceu. Parou de comer, parou de beber água, começou a ficar esquiva e quando percebemos, estava com icterícia e anorexia. Como já havia lidado com anorexia felina antes, comecei a tratá-la intensivamente com a ração adequada: eu pegava porções mínimas da ração com meu dedo indicador e metia na boca da enferma goela adentro, forçando mesmo, numa tentativa desesperada de mantê-la encarnada. Um dos ingredientes básicos do Amor é o apego e ele é saudável quando não sufoca. Também lhe dava água em colherinhas a fim de hidratá-la. Como a veterinária dos nossos filhos estava viajando, Levamo-la a outra que prescreveu algumas vitaminas, um medicamento para ajudar na hidratação e vários para estimular a atividade hepática.

Bárbara começou a tentar fugir para o mato, usando a pouca energia que ainda tinha, dando indícios de que queria morrer.

Havia momentos em que ela respondia bem ao tratamento e nos enchia de esperança; outros, em que se prostrava de tal forma que a tristeza tomava conta de nós. A veterinária dela, Dr.ª Suzana, mulher que amamos e admiramos, regressou e atendeu Bárbara. Disse-nos que o quadro era grave e nos apresentou didaticamente algumas possibilidades: hepatite felina ou câncer, ou cirrose e outras mais remotas. Uma nova fase da profilaxia tem inicio: suspendemos alguns dos procedimentos recomendados pela primeira, mantivemos a ração especial e a água e adicionamos a aplicação de soro fisiológico diariamente com uma droga chamada Ornitina e outra, misturada com a ração conhecida como Carnitina. Se dentro de dez dias Bárbara não apresentasse melhora, nós teríamos que submetê-la a uma ultrassonografia e a depender do resultado, se desse o câncer ou a cirrose, melhor seria partirmos para a eutanásia.

Nos primeiros dias dessa nova fase, houve melhora; nos demais, uma piora assombrosa. Ela passou a viver trôpega; mal se equilibrava entre as patinhas e sempre estava envolta em urina. Por vezes, tentou fugir para o mato com intenções suicidas.

Chega um instante em que o sofrimento do ser amado é tão grande que a morte passa a ser algo imensamente desejado. E ainda que estivesse nos doendo tanto admitir que o melhor para nossa filha seria o desencarne, começamos a tomar as providências para que ele acontecesse.

04 de outubro de 2012, Um dia antes da ultrassonografia, contudo, os sinais vitais dela reduziram-se completamente: o olhar ficou vidrado, respiração fraca, prostração total, magreza absurda e nós, impotentes diante da vida e da sua lei implacável de transitoriedade e final de ciclo. Conversei com minha gatinha e lhe disse que podia ir embora, que abandonasse aquele corpo doente e se libertasse, que não se prendesse mais aqui, pois seu tempo estava se findando. Era noite...

No dia seguinte, às cinco da manhã, fui vê-la, e com tristeza e alivio constatei que Bárbara estava liberta daquele corpo doente. Ela havia partido.

Enquanto o sol nascia, sepultei minha Bárbara e agradeci a Pablo, outro filho, outro gato, que durante o ritual fúnebre até quis urinar na cova, fazendo festa e me provando de que a vida continuaria e que um dia tanto ele como eu também abandonaremos nossos corpos gastos e nos libertaremos dessa vida... Que passa.

Barra do Pojuca, Camaçari, 06 de outubro de 2012.

7 comentários:

  1. Seu Aruanda,

    Que venham outros gatos (mesmo que não sejam substitutos dessa) para que seu sorriso nunca se apague!

    bjsMeus
    Catita

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. amei suas reflexões,o blog,enfim amei tudo!...tanto que agora sou uma de suas seguidoras! parabéns.

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  4. A vida é assim né, com perdas, choros, sorrisos, enfim, que você nunca apague seu sorriso do rosto! Adorei o blog!
    *Obrigada pela visita*
    Beijinhos&Brigadeiros,
    LihSantos

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    Respostas
    1. Valeu, minha amiga Lih. Também adorei seus poemas. Vou te visitar mais vezes. Beijão.

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  5. Antonio dos gatos

    Nunca vi gata suicida, nem anoréxica. Essa mania de magreza tá se alastrando, hein... rsrs
    Tadinha de Bárbara, imagino a angústia, o dilema interno pelo qual passou. Os gatos são mto inteligentes, ela deve ter tido seus motivos pra querer partir. E Pablo, que atitude!!!

    Espero que a Dona Morte se contente e vaze, viu... D. Aída tá internada.

    bj

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