Follow by Email

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Sete Ciganos - 10


Quando todos terminam o almoço, a dona da casa serve ambrosia como sobremesa:

- Está uma delícia! – fala Sofia.

- Você já viveu um grande amor, Cigana? – Indaga Eulália.

- Já vivi vários grandes amores. Sou uma mulher apaixonada.

- E apaixonante! – Diz Eulália embevecida.

- Obrigada, minha amiga – a cigana aperta a mão da anfitriã. – Sinto-me tão bem com vocês.

- Fico imaginando a festa que vai ser quando você se encontrar com os outros ciganos... – Comenta Joventino.

- Qual a finalidade desse encontro, Sofia?

- Que é isso, Eulália?! – Censura-lhe o esposo.

- Deixe ela, seu Jove. Não sei, dona Eulália. Acho que só vou saber quando acontecer.

- Sei que cada um de nós tem seu destino – fala Eulália – faz suas escolhas e arca com as conseqüências delas. Nasci e me criei aqui. Minhas viagens sempre foram para perto e hoje em dia, a gente só vai mesmo para Bom Jesus da Lapa em tempo de Romaria. Comecei a namorar Jove bem mocinha e com ele me casei. Não conheci outros homens e apesar de ter cometido alguns deslizes no passado, ele é um bom companheiro. É o homem que escolhi, mas quando a vejo, cigana, tão livre, tão solta, com uma vida tão cheia de acontecimentos, fico pensando o que teria sido de mim se eu tivesse feito outras escolhas? Eu tinha vontade de ser cantora... Já pensaram se eu tivesse ganhado o mundo e seguido meu sonho?

- Cante uma música para nós, Dona Eulália – pede Sofia. – Deixe-me ouvir sua voz.

Eulália se levanta, dá um pigarro, compenetra-se, fecha os olhos e respira profundo. Com sua voz grave e rouca, começa a cantar “As Rosas não falam”, de Cartola. A cena comove Sofia, fazendo-a lembrar-se de amores e fatos remotos. Joventino sente um nó na garganta.

Eulália se imagina num palco iluminado, cantando para um público numeroso que a adora imensamente. E esse faz-de-conta ganha tamanha realidade, que ela se empolga e canta cada vez mais forte, cada vez mais diva.

Ela concluí a canção com inigualável requinte dramático, arrancando aplausos de todo seu público imaginário. Abre os olhos e vê o marido e a amiga que a observam extasiados. Eles a aplaudem. Ela agradece modesta e se senta.

- Mas Eulália! Eu não estou te entendendo. Em todos esses anos você nunca se queixou de nada. Eu sempre achava que só eu tinha insatisfações e frustrações... Não temos tudo o que precisamos?...

- Jove, isso não tem nada a ver com termos tudo o que precisamos. Tem a ver com o que eu sempre quis dentro da minha alma e não dei a devida importância para optar pelo que eu achava conveniente e seguro... Mas como eu disse, foi minha escolha e não me arrependo. Só lamento. E se nunca me queixei, foi porque suas queixas já eram tantas que se juntássemos os dois com lamúrias, seria insuportável. Hoje em dia você está mais conformado. Chegou a minha vez de reclamar.

Joventino se cala e medita.

- A vida de uma andarilha também tem suas desvantagens, Eulália. Muitas vezes sinto falta do aconchego de uma família, de um homem que poderia ter vivido anos comigo, de uma rotina doméstica, de um quintal ou um jardim onde eu pudesse plantar minhas ervas e flores.

- Você nunca teve filhos?- Questiona Joventino.

- Sou estéril. Cada escolha que fazemos tem seu gosto doce e o amargo. O grande mistério é que cada um de nós nasceu para uma coisa: ou andar por aí, fazendo feitiço ou ter uma casa e fazer feijoada e doce de leite gostosos – o que é uma excelente magia.

Os três riem.

- E vocês, só tiveram Orlando?

- Não. Tivemos também Rosa, mas ela faleceu há dois anos – responde Joventino com tristeza.

- Câncer – diz a mãe.

- Era casada?

- Sim. O marido refez a vida e mora em Pernambuco hoje em dia. Eles tiveram dois filhos e com a segunda esposa, ele teve mais um.

- E Orlando?

- A história de Orlando é triste – fala Eulália. – Ele casou com uma dona há alguns anos e era louco por ela, mas a criatura era muito metida e gananciosa. Tiveram uma filha que infelizmente puxou o caráter da mãe. Ambas se envergonhavam de o pai ser um feirante e ele se matava de trabalhar para dar boa vida às duas. Há cinco anos ela se encantou por um advogado e abandonou meu filho, levando a filha. Nunca mais ouvimos falar delas e nem queremos. Orlando se desgostou e afundou numa depressão que quase o matou. Voltou para morar conosco, tomou novamente gosto pelo trabalho, mas fechou o coração dele para o amor. É um bom homem, porém não é feliz. A vida dele é a barraca, nós e futebol.

- É tão novo, forte e bonito! – Comenta Sofia.

- Minha preocupação – diz Joventino – é que um dia vamos morrer e o que será de Landinho? Quem vai cuidar dele? Se ao menos ele tivesse uma companheira que o amasse e fosse feliz com ela...

- Nada é impossível, meus amigos. A vida é cheia de surpresas e coisa alguma é definitiva – sentencia a cigana e Eulália percebe que ela tem algo em mente.

Sofia passa o dia inteiro com os novos amigos. À noite, quando Orlando chega, estreitam-se ainda mais os laços de amizade e Eulália pede que ela fique até mais tarde, pois o filho a levaria na Encruzilhada para ela cumprir o trato com o compadre.

A cigana prepara os ebós e às 23h45 se despede do casal e entra no Fiat Uno azul de Orlando.

- Meu pai sempre me contou a história da cigana Zenaide, mas nunca levei fé. Ele está muito feliz com sua aparição. Minha mãe também.

- Você é feliz, Orlando?

- Não acredito em felicidade, Sofia.

- É aqui, amigo. Pode me deixar aqui e tomar seu caminho. Muito obrigada.

- De jeito nenhum! Acha que vou lhe deixar sozinha? Vou lhe esperar e lhe deixo no hotel.

- Orlando, ouça o que eu lhe digo: quando eu sair do seu carro, tome o seu caminho. Entendeu bem?

A veemência com que ela fala é tão esmagadora que nada mais cabe ao nosso amigo senão obedecê-la.

- Entendi. Faça como quiser.

- Bom menino.

Despedem-se e ele se vai.

No centro da Encruzilhada, Sofia abre sete garrafas de cachaça e acende um cigarro.

- Laroiê! Aqui estou para honrar meu compromisso.

Exu surge garboso.

5 comentários:

  1. Todas as partes ótimas, mas esta foi minha preferida!

    ResponderExcluir
  2. Hunn, acho que aquele perfume de Margarida ainda vai enfeitiçar o jovem Landinho...será? aff que xeretice a minha!!! kkkk bj

    ResponderExcluir
  3. Xeretice nada (risos).Você só está lendo nas entrelinhas do meu fio narrativo. Isso é ótimo! Adoro fazê-lo quando estou lendo uma história ou vendo um filme. Bjo!

    ResponderExcluir