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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Sete Ciganos - 11


Quinta-feira

Sofia acorda mais tarde, arruma-se e vai tomar o desjejum. Passando pela recepção, é abordada pelo atendente.

- Bom dia, dona Sofia!

- Bom dia!

- Quatro moças e um rapaz estiveram aqui ontem à sua procura.

- Deixaram nomes ou recados?

- Apenas uma, Margarida, que deixou o telefone do trabalho e pediu que a senhora ligasse para ela.

- Obrigada.

- Disponha... É... Dona Sofia...

- Sim.

- Eu trabalho até às 16h00. A senhora pode jogar para mim depois desse horário?

- Às 16h30 está bom para você?

- Está.

- Vá ao meu quarto.

- Certo! Certo!

A cigana toma o desjejum, mas se sente cansada dos trabalhos feitos à noite. Volta para o quarto e dorme novamente. Sonha com a velha cigana entregando a medalha a Joventino. Depois se vê dando ao mesmo, o talismã.

Sofia atende o recepcionista e depois resolve dar um passeio, mas é abordada por Margarida que a esperava na entrada do hotel:

- Nossa! Como sua agenda está cheia! É difícil te encontrar!

Ambas se cumprimentam carinhosamente.

- Que bom te ver, Margarida! Realmente estou cheia de compromissos, mas adorando a cidade e as pessoas que tenho tido o prazer de conhecer. Estou feliz porque vejo que você está se cuidando mais, deixando sua beleza se manifestar.

- Nunca me senti tão bem.

- Que bom!

- O Bumba-meu-boi vai se apresentar hoje no Barracão Recreativo. Quer ir?

- Claro que quero! Que horas?

- A partir das 19h00.

- Vai ser ótimo!

- Vou em casa tomar um banho e me trocar e passo aqui para te pegar.

- Combinado.

No exato momento, Orlando chega ao hotel e dirige-se ao local onde estão as duas:

- Boa tarde, Sofia! Boa tarde! – Saúda-as.

- Boa tarde, Orlando! – Conhece Margarida?

- Não.

- Orlando, esta é Margarida. Margarida, este é Orlando, filho de Dona Eulália que estava comigo ontem, quando nos falamos.

Ambos se cumprimentam com certa formalidade. Margarida se sente atraída pelo homem.

- Passei para saber como você está. Meus pais querem notícias suas e estamos te convidando para uma sopa hoje, à noite.

- Estou bem, amigo. Só que infelizmente não poderei aceitar o convite, porque combinei com Margarida agora para irmos ao Bumba-meu-boi.

- Que horas será a apresentação?

- A partir das 19h00 – responde Margarida.

- Problema resolvido: vocês jantam conosco e nós vamos ver “O Boi” depois.

- E aí, Margarida? – Questiona a cigana.

- Mas nem tomei banho ainda...

- É pegar ou largar – fala Orlando.

Ela pensa uns instantes:

- Está bem. Vamos tomar sopa e depois vamos para o Barracão.

- É bom irmos logo agora lá para casa. Quanto mais cedo chegarmos, mais cedo jantaremos.

- Concordo – fala Sofia adorando a forma que o destino está conspirando para que Orlando e Margarida se aproximem e, quem sabe, despertem para o amor e curem seus infortúnios.

Na casa de Joventino e Eulália, o clima é de descontração e amizade.

Num momento, Sofia fica a sós com a dona da casa:

- E aí, foi tudo bem? - Quer saber Eulália.

- Foi.

- Qual a sua intenção ao trazer Margarida aqui?

- É o que a senhora está pensando, mas quem a convidou foi seu filho.

- Mas ela é branca. A outra também era branca. Será que vai querer meu filho, um negro? Um feirante?

- Ela é gente que nem ele, que nem eu, que nem a senhora e seu marido. É uma pessoa boa; também é sofrida como ele e ambos podem se ajudar através do amor.

- Não quero que ele se machuque de novo.

- Se ele não correr riscos, passará pela vida sem ter vivido. Devemos estar sempre prontos para recomeçar.

- Confio em você, Sofia.

- Então vamos bancar os Cupidos.

- Está bem.

Durante o jantar rolam assuntos diversos: Joventino conta piadas, Eulália dá receitas de comidas; Orlando fala de feira; Margarida relata a situação que enfrenta com o pai, que fica com um parente quando ela está fora e Sofia fala da própria história para Margarida e Orlando.

- Esse jeito bonito de ser que você tem, Sofia, atrai a admiração ou a antipatia das pessoas – fala Eulália. – A Irmã Vera, que trabalha no hospital, não lhe suportou desde que a viu pela primeira vez.

- O que fiz a ela?!

- Nada. Ela é uma infeliz e mal-amada. Ao ver você usando seus conhecimentos na enfermaria para ajudar Jove, ela sentiu uma inveja descomunal. Eu vi. Acho que ela queria ser como você.

- Esse tipo de coisa sempre ocorre comigo, aonde quer que eu chegue. Ou me amam, ou me odeiam; ou falam bem de mim; ou cobras e lagartos.

- Quem não gosta de você é porque não a conhece – diz Margarida.

- Sou uma mulher de sorte por vocês me conhecerem.

Todos riem.


Quando Orlando, Margarida e Sofia chegam ao Barracão. O Bumba-meu-boi já está acontecendo. Muita música, dança e alegria deixam a atmosfera do lugar radiante. As pessoas se divertem e se assustam com o Boi Mágico. Sofia viaja nos costumes, crendices e no folclore da cada lugar por onde passa. Contempla a cultura do povo e se irmana com cada um, até mesmo com os que não a compreendem.

Finalizada a apresentação, todos aplaudem e o grupo “Santos Reis” de Bom Jesus da Lapa, é anunciado. A vibração é geral com sua chegada e logo se faz silêncio para que a música de raiz expanda seu poder e cause os mais variados efeitos na mente e no coração de quem está presente. A cigana se emociona profundamente.

Após outras apresentações, o evento se conclui e os três vão a um bar. Sofia pede uma taça de vinho; Orlando, uma cerveja e Margarida o acompanha.

- Vamos brindar à nossa amizade – propõe Sofia.

Eles concordam e fazem o brinde.

- As apresentações foram muito lindas! – Exclama a cigana.

- Imaginei que você fosse gostar – fala Margarida.

- Você vai deixar saudades quando partir – fala Orlando.

- E vou levar também, meu querido. Mas o que importa é o agora. É este momento em que estamos juntos celebrando a vida.

- Quando vai embora? – Pergunta-lhe Margarida angustiada.

- Não sei, minha amiga. O vento sempre me avisa da hora da partida. Ele ainda não deu sinal algum.

- Tomara que você encontre seus companheiros – deseja Orlando.

- Meus companheiros são todos os que amo. Embora a meta principal da minha andança seja encontrar os seis ciganos, há um prazer muito grande em mim de estar na estrada, parar nos lugares, conhecer pessoas e me relacionar com elas.

- Que vai acontecer quando todos estiverem reunidos? – Questiona Margarida.

- Não sei – responde Sofia. – O destino dirá.

7 comentários:

  1. Legal você abordar a cultura local! Sabe, Aruanda, você está se tornando meu autor favorito.

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  2. Valeu, Diana. A vida é muito rica; gosto de prová-la em todas as suas nuances. Beijo.

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  3. Ei, acertei, viu só! sempre acerto nas coisas de cupido...só para mim que não dei sorte. mas p os outros, quem precisar é só me chamar...rsrsrs estou adorando até aqui, Sr Aruanda, acho q sua historia esta me dando muita vontade de recomeçar algo que eu havia enterrado....

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  4. Fico feliz que minha história esteja lhe fazendo ressuscitar aspectos adormecidos, Sra Bosso. Se você acerta nas "coisas de cupido" para os outros, pode fazer isso também por si mesma. Sabe do que mais? Você é Cigana, irmã! Bjo.

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  5. Esse capítulo me fez reportar-me a uma história que nós já conhecemos e que sabemos também que não é uma fantasia nem criação nem tão pouco obsessão. Agora eu compreendo um pouco de cada sentimento de ambas as partes...Caso vc. não se lembre é só se reportar aos momentos em que eu morava em Feira de Santana, existia um grande conflito em minha vida e só hoje eu sei o que realmente aconteceu, também eu creio que você sabe que apesar de como o conteúdo foi me passado, existia uma verdade um tanto que meio digamos "fantasiosa, com muito glamour" e hoje eu sei que de glamour não tinha nada. Ninguém quer ser o pobre, o negro ou o miserável, em vidas passadas é cômodo acreditar que fomos príncipes, reis, rainhas e Sacerdotes. A história dos reis e sacerdotes temos acessos mas a história do povo, dos que viveram no dia a dia essa sim é que é a marca registrada da vida, dos valores reais, daquilo que estamos vivendo agora e é por isso que eu digo que essa sua história venha a esclarecer muito sobre nossas ligações (Eu, você, Patrícia...e aqueles que cruzaram, estão cruzando e cruzarão nos nossos caminhos e que provocarão enormes mudanças) talvez esse seja o meu medo, o desconhecido... Sinto o aroma dos campos, dos vales bem como o aroma das cavernas de pedra fria... Obrigado meu irmão mais uma vez, você está me fazendo refletir muito sobre o antes e o agora...

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