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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Charles

Ele fumou uma pedra e ficou bestando na Praça Nossa Senhora da Luz, enquanto os fiéis rezavam por suas almas e pelos pecados que jamais deixarão de cometer. Ele pensou na mãe, no pai, na avó e no irmão: A mãe fugiu com o circo, deixando ele e o caçula com o pai, que endoidou depois do abandono e transferiu o sacro ofício de criá-los para a avó, mulher rígida e amorosa - um paradoxo.
Será mesmo?
O pai sempre foi gente boa, mas fraquinho dos nervos. Ainda assim o sustentou até os dezoito anos antes de se jogar do décimo andar e virar suco no asfalto quente. Triste espetáculo! O irmão se perdeu no mundo, ninguém soube mais notícia e ele, foi vivendo... Até a avó bater as botas, trabalhou como ajudante de pedreiro, depois foi ser vigia e conheceu Dolores.
Dolores era traficante. Ficaram ricos. Também se viciaram. A casa caiu. Dolores foi presa e morta na gaiola de ouro. Ele comprou um táxi e ganhou as ruas da capital, mas estava deveras instigado pelo companheiro crack. Se fu... Foi vendendo tudo o que tinha, até a alma, ficou sem casa e passou a dormir no Hotel Solaris, onde toda a sacizada se reunia para fazer bagunça, sexo, loucuras e o que ocorresse.
Num dia, amanheceu sem o carro...
Numa noite, estava sem um puto porque comprou umas pedras.
Num outro dia, amanheceu na praça e viu que seria interessante passar uns tempos na rua - a Praça Nossa Senhora da Luz passou a ser seu lar e ele se tornou um ilustre guardador de carros. Tudo o que ganhava virava pedra -mágico, isso, não?
Foi na praça que conheceu Jacklene e com ela foi para o centro de recuperação. Passaram dez meses lá e saíram limpos - Uh! Lah!Lah! - foram morar com a mãe dela, rolou conversão numa igreja evangélica e a vida ficou santa. Ele assumiu os filhos dela, tiveram mais um, mas como a carne é fraca e o fruto gostoso, Jacklene se engraçou com um foragido e meteu-lhe alguns pares de chifres. Ele deu o zig. Voltou para a praça e se dissolveu novamente no vício e na malandragem.
Um dia uma bala perdida - Será que existe mesmo bala perdida? Se tudo está na mais perfeita ordem, penso que tudo seja mui bem direcionado. Todas os reveses e sortes têm seu endereço certo -onde foi que eu estava mesmo? Sim, um dia uma bala (perdida?) o atingiu e ele foi parar no Hospital Geral. Teve febre e no delírio, viu Deus sentado no trono, de barbas brancas e olhos azuis - coisa bem ariana - aí voltou para a igreja.
Virou irmão , dava gosto de ver, mas aí a mulher do pastor empombagirou-se e não deu outra, deu pra ele e o panavoeiro se fez presente.
Voltou para a praça e hoje passa o resto dos seus dias fumando pedras, fingindo que guarda carros, brincando de esquecer da vida, torrando as últimas células de uma existência infame.

2 comentários:

  1. O pior é que se trata de uma história real, amiga. Só mudei os nomes.

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