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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Sete Ciganos - 24



- “Amargosa” é um nome curioso. De onde vem? Você sabe?
- Hum! Segundo os antigos, aqui era uma aldeia de índios. As riquezas do solo atraíram a civilização branca e principalmente os povoadores de Nazaré e de Santo Antônio de Jesus que desbravaram as margens do Rio Ribeirão e ali se fixaram. Esses colonizadores massacraram os indígenas e tomaram conta do lugar. Por volta de 1840 isso aqui começou a prosperar e eles comiam a carne dos pombos que havia em demasia. Essa carne tinha sabor amargo e daí veio o nome.
- Que horror! Desde cedo os homens pensam que são donos da terra e por isso, matam, brigam, destroem... Mas é assim que até hoje se faz história. Quem sabe um dia, todos nós aprendamos a ser mais civilizados. Como aqueles índios devem ter sofrido! Pude observar traços da arquitetura européia em algumas construções antigas da cidade, traços da dominação infame! Patrício, seu amigo da feira, me deu excelentes informações. Ele é ótimo!
- Pois é. Ele me disse que italianos, portugueses e espanhóis vieram para cá trazendo comércio com armazéns de secos e molhados e o plantio de café e fumo. Patrício é um estudioso. Gosto muito dele.
- Também gostei, desde que o vi.
- Além disso, teve a imigração dos negros que chegaram aqui como escravos e trabalharam na cultura do café. Suas marcas estão na religiosidade, na música, no folclore e em muitas outras instâncias.
- E também foram infelizmente explorados e maltratados pelos brancos.
- Sim. Infelizmente.
- Há algo em comum entre nós, ciganos, os negros e os índios. Todos somos marginalizados por uma camada da sociedade que se julga superior e é tão imbecil, que nem se apercebe da força de nossas origens e do nosso saber na formação cultural do mundo.
- Hoje a coisa está muito melhor, mas reconheço que ainda há muito preconceito contra nós e outras minorias. O que também vejo é uma tendência a uma virada nesse quadro, à medida que nós reconheçamos nosso valor, nossa raiz e passemos a nos impor não através da força ou da violência, não mais através de segregações ou guetos, mas a partir das nossas potencialidades. Se houve tantos extermínios e discriminações sobre nós, é porque de alguma forma, sempre ameaçamos alguma coisa no poder vigente. Somos poderosos. Toda minoria, na verdade, tem um poder muito maior do que qualquer grupo que esteja dando as cartas. Só precisa despertar a força e contagiar os afins. Aí o que se esconde, se assume e da aparente menor porção, surge a multidão dos excluídos que passam a se incluir e a ter voz e vez.
- Você é um adorável rebelde, Carín.
- É por isso que estou com você.
- Nossa magia, nossos costumes, nossas leis nada têm a ver com a maioria dos mitos que criaram em torno de nós. No nosso povo, como em qualquer outro, existem pessoas desonestas e é muito triste saber que a sociedade em geral prefere tomar como referência a parte podre.
- Dias melhores virão, cigana. Escreva o que estou dizendo. Em nome de Santa Sara Kali, filha de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Santa Maria Madalena, chegará o tempo em que seremos reconhecidos pela nossa grandeza e valor.
- Optcha!
O auto segue pela estrada. Sofia vê as plantações de várias culturas como mandioca, banana, milho, feijão, amendoim, cacau e cana-de-açúcar e se encanta com a força da flora regional. Vê ora bois, ora ovelhas e carneiros pastando e deixa-se envolver pela melodia La Barca.

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