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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Sete Ciganos - 33

Mais tarde, no quarto, contemplando a pintura do jovem, Sofia indaga a Shalom:

- Qual a explicação para o que está ocorrendo com Romeu? Em todos esses anos de estrada, feitiço e vida, nunca vi uma magia assim.

- Tem coisas nessa vida que se forem explicadas, perdem a graça. É como o Amor... Explicar algo, às vezes, esclarece e beneficia; mas outras, restringe, limita a grandeza do sentimento. Não sei, minha amada, o que acontece àquele gajão mais cigano do que muitos ciganos espalhados por aí, mas sei que é um iluminado e que temos de ajudá-lo.

- Temos de organizar essa exposição.

- É. Precisamos.

Nos dias que se seguem, os ciganos e Tânia saem em busca de patrocínio, dos poderes públicos, da ajuda de outros ciganos e de várias pessoas a fim de montarem a exposição de Romeu, que conforme o próprio, se chamará “Somos Ciganos!”

Enquanto isso, incansavelmente, movido por uma paixão que extrapola qualquer conjectura racional, Romeu trabalha quase sem parar. Tomando, a custo, um copo de leite de seis em seis horas e dormindo pouquíssimo.

Seus quadros caracterizam o cotidiano do povo cigano. Pinta os cinco que integram o grupo dos amigos, individualmente; pinta um acampamento num belo cenário noturno com muita festa e movimento – e evidencia o Cruzeiro do Sul -; pinta uma mesa com cartas abertas; uma velha lendo a mão de uma jovem; uma caravana e muito outros quadros que retratam os nômades da Terra.

Patrício se encanta pelo jovem e decide ajudar os ciganos na organização do vernissage.

Dias depois, a Galeria do Banco do Brasil abriga as obras de Romeu numa grande noite de festa, regada a queijos e vinhos, dança e música cigana de um grupo que veio da capital.

As pessoas se admiram com o talento do jovem pintor e elogiam suas telas, o tema e toda a atmosfera criada com a tônica cigana. Tânia, muito feliz, se comove ao ver os convidados reconhecendo a arte do seu filho e a alegria infantil do artista, que conversa com todos com desembaraço e segurança.

Um homem, vestido com discrição, com ar intelectual e refinado passeia pelo local observando as telas atentamente. Shalom e Sofia, que estão ao lado de Patrício, notam o cavalheiro:

- Conhece aquele gajão, Patrício? – Pergunta-lhe Shalom.

- Aquele loiro? – Patrício observa o homem.

- Não. Tem cara de turista. Deve estar a passeio.

Shalom lembra-se da runa que Romeu escolheu. A Runa Branca. O Olho de Odim. O inesperado. A força do destino. O cigano se arrepia e Sofia percebe:

- Que foi?

- Senti algo estranho ao ver aquele senhor.

Ela olha o homem:

- Bom ou ruim?

- Não sei... Nada de ruim... É algo que...

Romeu e o homem loiro se encaram. O pintor sorri e o estranho também. Shalom e Sofia assistem a cena:

- O destino de Romeu se revela nesse momento – fala o cigano.

O homem se dirige ao jovem e estende-lhe a mão:

- É um prazer, conhecê-lo, Romeu. Meu nome é Aristides.

Romeu aperta-lhe a mão com alegria:

- O prazer também é meu, Sr. Aristides.

Tânia e outras pessoas prestam atenção à conversa:

- Por que ciganos, Romeu?

- Porque é como me vejo e vejo o mundo: um grande acampamento; uma imensa caravana. Gostou dos meus quadros?

- Muito! Você tem um estilo clássico que impressiona em meio a toda essa modernidade. Não que eu não goste de arte moderna. Amo, assim como amo todo tipo de arte feita com alma, mas suas telas são diferentes: têm uma história... Anunciam algo que foge à minha compreensão. Intriga-me a sua mensagem, meu rapaz. Gostei muito dos seus quadros e de um em especial.

- Qual?

- A Caravana. Quanto custa?

- Quanto o senhor dá por ele?

- Diga seu preço, Romeu e a gente negocia.

Os ciganos e Patrício se aproximam.

- R$ 500,00 – fala Romeu.

- Não é justo! – Protesta o homem, causando indignação nas pessoas.

- E o que é justo? – Questiona o pintor.

- Essa obra não vale esse preço.

- E que preço ela vale, em sua opinião? – Romeu sorri ao perceber a real intenção do admirador.

- Muito mais do que você propôs, meu rapaz.

- Faça sua oferta, senhor.

- R$ 2.500,00.

Os demais se surpreendem.

- Não está me superestimando, senhor?- Questiona Romeu.

- Você é um jovem tão talentoso que nenhum dinheiro no mundo pagará sua genialidade.

- Agradeço a generosidade. O quadro é seu.

- Tem conta nesse banco?

- Minha mãe tem – Romeu mostra a mãe a Aristides e eles se saúdam.

- Amanhã transferirei o dinheiro para a conta da senhora e como ficarei aqui até a próxima semana, acho válido deixar essa obra exposta para encantar as pessoas, com o comunicado de que ela já tem dono e quando eu partir, levá-la-ei comigo.

- Tudo bem, senhor – fala Tânia, procurando os olhos dos ciganos e ambos aprovam a negociação silenciosamente.

- Mas além de minha obra, outra coisa lhe chamou a atenção sobre mim, Sr. Aristides. O que foi?

Aristides olha emocionado para o jovem e emudece:

- Estou um pouco cansado por hoje – responde evasivo.

- Amanhã vá à minha casa. Será um prazer recebê-lo, não é mãe?

- É sim, filho...

- Certo, obrigado... Com licença!

O homem sai às pressas, deixando as pessoas curiosas. Romeu sorri:

- Por que ri, Romeu? – Pergunta-lhe Patrício.

- Porque estou feliz, meu amigo. Muito feliz.


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