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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Sete Ciganos - 34


No dia seguinte, Aristides chega à casa de Romeu e é recebido por Tânia:

- Bom dia, senhora!

- Bom dia, seu Aristides!

- Fiz a transferência do valor para sua conta. Aqui está o comprovante.

Ele lhe entrega o papel, ela o examina e o guarda:

- Muito obrigada, senhor! – Fala emocionada.

- E Romeu?

- Ele está aqui. Entre, por favor.

O homem penetra no recinto e vai até a sala onde encontra o jovem artista, que ao vê-lo, abre um lindo sorriso que o comove e faz-lhe encher os olhos de lágrimas. Romeu vai até ele e o acolhe num abraço. Aristides desmonta num choro convulso e o pintor o consola como um velho amigo, deixando a mãe perplexa.

Os dois se afastam:

- Perdoem-me... Eu me descontrolei! – Desculpa-se o homem.

- Relaxe, Aristides – diz Romeu. – Sei como é difícil, mas acalme seu coração. Sente-se. Penso que é hora de conversarmos.

- O senhor quer um pouco de água? – Pergunta Tânia.

- Por favor.

Atônita, ela vai buscar um copo de água, enquanto o visitante e o filho se sentam. Está tudo muito confuso! É estranha a forma coloquial que o filho tratou o homem misterioso. Romeu parece conhecê-lo...

Ela volta à sala. Aristides está enxugando os olhos e se recuperando. Romeu o contempla com carinho. Ela serve ao visitante, ele agradece, toma a água até a metade. Põe o copo sobre a mesa e pigarreia:

- Bom, acho que é hora de eu me explicar – inicia Aristides. – Tenho 60 anos, sou aposentado do exército e tive certo destaque na carreira militar. Gosto de estudar ocultismo e tenho um interesse especial pelos mistérios do povo cigano. Moro em Salvador e soube da sua exposição, Romeu, através do jornal, e além de me interessar profundamente pelo tema, houve algo que me chamou a atenção: sua foto. Fui casado e muito feliz com uma descendente de ciganos por 20 anos e tive um filho com ela chamado Yago. Ela e ele eram a razão da minha vida.

- Que aconteceu com eles? – Pergunta Tânia.

- Morreram num desastre de avião há dois anos.

- Oh! Sinto muito! – Lamenta a mulher, compadecida.

- Obrigado, senhora. E achei fantástica a semelhança que seu filho tem com o meu. Olhem só essa foto.

Ele tira a foto da carteira, em que estão a esposa e o filho, e a mostra aos dois:

- Nossa! Parecem gêmeos!

Romeu pega a foto, olha e sorri:

- Estive com ele dois dias antes da exposição – fala Romeu.

- Com Yago?! – Pergunta Aristides.

- Sim. Ele me disse que você viria e que estava vivendo muito só e triste e me falou para aceitar sua ajuda e lhe dar o amparo que você precisa. Eu já estava lhe esperando Aristides, por isso fiquei tão contente ao vê-lo no vernissage.

- Santa Sara Kali! Isso é maravilhoso! – diz o homem afagando o rosto do rapaz.

Tânia está emocionada e feliz.

- Diga o que tem em mente, Aristides – fala Romeu.

- Eu não quero me precipitar, Romeu... Não por mim, mas... Por sua mãe e por você...

- Diga – Romeu insiste.

- A senhora não precisa me responder agora. Sinta-se livre para ter o tempo que for preciso para pensar sobre minha proposta... É... Seu filho misteriosamente deu um novo sentido à minha vida. Desde que vi a foto dele no jornal, senti que valia a pena continuar existindo e que seria muito bom se de alguma forma eu pudesse ajudar na formação cultural, artística e intelectual dele. Ele é um grande artista e imagine se fizer cursos em artes plásticas e aprimorar ainda mais sua técnica... Dona Tânia, nesse momento eu convido seu filho a vir morar comigo, em minha casa. Quero proporcionar a ele o que eu dava ao meu Yago, que também era um pintor excelente. Compreenderei perfeitamente se houver recusa...

- Eu aceito – fala Romeu com naturalidade.

- Calma, Romeu!... – Reclama a mãe – Tudo isso está indo rápido demais e meu ritmo é outro. Sr. Aristides, fui pega de surpresa por todos esses acontecimentos e revelações e por isso necessito de tempo para colocar as coisas em ordem. Meu filho é... É especial, entende?

- Claro que é...

- Não é nesse sentido que o senhor imagina...

- Eu tenho Esquizofrenia Paranóide – esclarece o jovem com o mesmo tom natural que chega a desconcertar os mais velhos.

- É... Ele tem essa... essa... essa especialidade – prossegue a mãe. – E...

- Tomo remédio controlado e minha mãe se preocupa muito comigo. Só tem a mim e não conseguiria viver longe de mim. Então seria interessante se você também estendesse o convite a ela.

- Romeu?!

- Eu li isso em sua mente, mãe.

- Mas é claro. Perdoe-me! Só não a convidei a priori porque imaginei que fosse mais difícil para a senhora deixar a vida aqui. Mas quanto à “especialidade” que esse gênio possui, não vejo problemas. Aliás, penso que isso é uma grande solução no sentido de driblarmos essa vida que nós mesmos complicamos. Estendo à senhora, Dona Tânia, o meu convite. Faria muito gosto de tê-los morando comigo e compreenderei se houver recusa, como eu ia dizendo, porém saiba que se houver concordância, voltarei a ser um homem feliz e farei de tudo para que vocês também o sejam.

- Meu Deus, que loucura! – Ela desabafa e lembra-se da runa tirada pelo cigano – O senhor pode me dar dois dias para eu pensar?... Como o senhor mesmo disse, tenho uma vida aqui e não posso decidir isso assim... Na bucha, entende?

- É lógico.

- Por mim, eu já iria ontem – fala Romeu e todos riem.

- Calma, meu jovem! Tudo a seu tempo – adverte Aristides.

- Aceita um café ou chá? – Pergunta-lhe Tânia.

- Café, por favor.

- Vou passar um para nós.

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