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domingo, 6 de março de 2011

Quando a morte ronda

A morte sempre ronda e tem me rondado mais de perto. Quarta-feira , 02 de março de 2011, Dão “deu o zig”. Dão é um amigo meu e preste atenção que digo “é” e não “foi” porque pra mim continua vivo. Faz falta a presença física, faz falta a fala, a ideia, o jeito, a força, o caráter, o toque, a pele, o cheiro, o olhar nada óbvio, o adorável sarcasmo, a impecável ironia, a inteligência ágil, a conversa afiada, a tatuagem das aranhas... Faz falta a comida boa, feita com arte, com ciência... Faz falta o mistério. Pois é, Dão deu o zig e deu o zig, pra quem não conhece “o que é e o que pode esta língua”, é partir.

Ainda que eu conviva com a ronda da morte desde que nasci, nunca é tão fácil perceber sua presença e permanecer tranquilo como se estivesse tomando um copo de limonada. Quando soube que meu amigo deu o zig, deu um aperto no peito, mudei meu nome para Tristeza, pensei nas irmãs, na mãe, na família, na mulher, nos amigos dele, pensei em mim e minha velha rinite vaso-motora me derrubou – tenho plena consciência que é algo meramente emocional ; sou desequilibrado mesmo, prazer em conhecer – e ganhei uma noite carregada de dor e caos.

No dia seguinte viajei para sepultar aquele corpo, aquele homem, aquele Deus. Cheguei tarde. O enterro foi às onze e aportei em terras nazarenas às duas, e pouco importam os motivos geográficos,fisiológicos e carnavalescos que obstacularam meu intento. Vale mesmo é que vi gente que também o ama, abracei essa gente, juntei minha dor com a dor deles e nos completamos. Isso se chama amor.

Hoje, domingo, 06 de março de 2011, Telma e Alvim, duas amigas chorosas, bateram em minha porta. A cadelinha Lice, que viveu com elas por 20 anos também resolveu dar o zig. Moro num solo sagrado e minhas amigas me pediram para sepultar sua fiel companheira aqui. Tomamos o desjejum, eu,minha mulher, elas. Choramos juntos, lembramos de coisas, falamos de morte e senti sua ronda leve e forte. Quando vamos a Salvador, sempre pernoitamos, eu e minha companheira, em casa dessas amigas e Lice sempre que me via, corria, saltava, cortejava-me e depois se largava no chão com a barriga pra cima para que eu pudesse lhe acarinhar. Não foi nada fácil sepultar o corpo dessa mina de alegria e hospitalidade, mas o fiz, num ato de solidariedade a minhas amigas e minha última homenagem à matéria de Lice: muni-me de cavador, enxada e pá. Cavei a cova junto com as enlutadas e nosso amigo Joad, depois recebi Lice nas mãos, seu corpo sem vida, envolto em panos, frio, gélido... Lembrei-me dela com a barriga a mim ofertada, aguardando minhas carícias. Doeu! Mandei minhas amigas saírem e ambas o fizeram. Pus minha fiel amiga no solo, retirei os panos, acariciei seu abdome hirto, um líquido familiar escorreu dos meus olhos... Com a pá cobri o que foi cavado, marquei o local indicando que ali há um corpo e me retirei.

Revi minhas amigas. Elas me agradeceram. Abraçamo-nos e elas se foram remoer saudades e alegrias que tiveram com a pequena puddle. Retomei minha rotina, recolhi o lixo, alimentei os gatos, cuidei de minha mulher, preparei o material de trabalho do eletricista e do ajudante e fui fazer o almoço. Enquanto o fazia, veio a imagem de Dão em minha mente. Dão fazendo sopa, caruru,um monte de coisas gostosas e me lembrei também, enquanto compunha meu delicioso tempero, que quando o via cozinhando e comia suas iguarias, sempre dizia: um dia vou cozinhar também. Hoje cozinho, e bem. Meu amigo foi o exemplo excelente que me motivou a desenvolver tal habilidade e eu lhe sou eternamente grato por isso.

Quem passa por nossa vida, sempre deixa uma marca. Tem gente boa como Dão, como Lice, que deixaram marcas lindas em mim e isso levarei comigo aonde eu for,mesmo quando a morte me pegar para passear. A vida é por demais efêmera. Temos tão pouco tempo... Aproveitemos este átimo para nos amarmos. Não percamos nossos preciosos instantes com mágoas, ódios e rancores. Tudo passa, tudo acaba. É inevitável... A morte continuará a rondar, como sempre. Um dia passearemos todos e enquanto esse não chega, vivamos o momento, aproveitemos o dia, fiquemos juntos.

17 comentários:

  1. Sinto muito sua perda.
    Que bom que voce tem um amigo como esse.

    Bjos

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  2. Belíssimo depoimento querido amigo, intenso, verdadeiro, íntegro, singular... tal como és.
    É uma alegria compartilhar contigo essa caminhada na escola da vida.
    Muita LUZ no seu caminho!

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  3. NINGUÉM CONSEGUIRIA EXPRESSAR MELHOR O QUE TODOS SENTIMOS, LINDAS PALAVRAS.. BJOO

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  4. Aruanda, estou em prantos. Isso é tão grandioso! Obrigado, amigo, por encher minha vida de poesia, sabedoria e emoção.

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  5. Minha querida Ludimila, obrigado por partilhar comigo essa emoção. Saudades. Que bom temos a internet e nos lemos.
    Meu caro Amaral, é muito bom tê-lo em minha vida e estar na sua. Luz!
    Jack, Amo você.
    Diana, seus comentários me tocam profundamente. Você também enche minha vida com cada retorno dado. Optcha!

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  6. Antonio, lindo texto, não consegui falar da morte com essa leveza. Amei ver vc descrevê-lo. Era assim que mtos o viam.
    Enfim, o vazio ficou e só o amigo tempo pra sarar essa dor.
    bjo no coração!

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  7. SOL(i)DÃO... A saudade fica, mas a luz da certeza do reencontro conforta. Abração Toni!

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  8. Meus amores,Paty e Luiz,que o tempo nos cure e a esperança do reencontro nos encha de alegria. Que o Amor de vocês os abençoe! Beijo.

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  9. Lindo Texto e muito mais belo são os sentimentos. Obrigada por partilhar conosco um olhar pulsante sobre a vida. Bjo azul!

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  10. Amigo, a saudade de Lice saltou do meu peito em forma de lágrimas ao ler seu texto. Amor de Aruanda, amor de pessoa, amor.

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  11. Olha meu lindo mergulhei em seu texto e refleti sobre tantos que deram zig, mas que deixaram como Lice e seu amigo Dão o carinho como lembrança, um beijo nessa alma sensível.

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  12. Beijo,Aninha. Também estou te seguindo.

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  13. Meu irmão vc. é maravilhoso... Te amo!!! A sua integridade diante do Universo e suas leis é muito pura e sábia!!! Vcs. dois são umas das razões mais importantes de minha vida...

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  14. Mel, vcs dois também completam o sentido de eu ainda estar aqui. Amo-os demais!

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  15. Paz e leveza é isso que sinto agora!
    Obrigada por nos ofertar com suas belas palavras!!!

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