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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Sete Ciganos - 74


Saindo da casa de Ernestina, passam pelo Correio, pela Delegacia e vão dar uma volta pela cidade histórica. Passam pela Prefeitura, pela Galeria do IPHAN, pela Pousada do Convento e se encantam com o Museu da Ordem 3ª do Carmo com seu belíssimo acervo de 300 peças de arte sacra.
Quando saem do Museu, porém, chama-lhes a atenção um movimento estranho e uma gritaria que acontece em frente a uma casa. Antonio corre logo para ver o que ocorre: três senhoras pedem socorro apavoradas:
- O que está acontecendo?! – Pergunta o cigano.
- Ele ainda está se debatendo lá dentro! – Grita uma delas.
Antonio entra abruptamente na casa e chegando ao primeiro quarto, vê uma cena angustiante: um homem magro e moreno claro se debatendo, pendurado numa forca. Instintivamente ele abraça as pernas do suicida e o suspende a fim de neutralizar a pressão gravitacional que apertava a corda no pescoço do desgraçado.
O homem já está ficando roxo e quase sufocado. Urina-se todo e os outros ciganos chegam. Antonio pede a Shalom para cortar a corda, indicando-lhe o local onde guarda a adaga. Shalom o faz e o homem desfalece nos braços de Antonio.
- Ele ainda está vivo – fala Zenaide. – Precisamos levá-lo ao hospital.
- Qual o nome dele? – Sâmia pergunta a uma das mulheres.
- Flávio.
- Vamos! – Diz Pedro – Não temos tempo a perder.
Os ciganos levam Flávio ao Hospital na Praça Milton. Ele é atendido na emergência e é medicado. Não corre mais risco de vida.

Inconsciente, Flávio é levado para a enfermaria e os ciganos permanecem no hospital, esperando que ele desperte:
- Vocês são amigos dele? – Pergunta-lhes a médica.
- Nem o conhecíamos – responde Sofia. – Saíamos do museu da Ordem 3ª quando vimos o rebuliço na porta dele. Antonio correu para lá – ela põe a mão carinhosamente no ombro do cigano – e chegou a tempo de salvá-lo.
- Alguém lhes disse qual poderia ser o motivo de ele atentar contra a própria vida? – Pergunta a médica.
- Como se chama, filha? – Indaga-lhe Zenaide.
- Kátia.
Kátia é uma negra bonita e de personalidade forte.
- Não, Doutora Kátia. Sabemos que ele se deixou levar por um desespero tão grande que teve a coragem de querer se matar.
- Eu não sou muito versada em espiritualidade, mas sei que a alma de todo suicida pena muito até encontrar a paz.
- Pois eu penso que somos livres para nascer e para morrer na hora em que bem desejarmos – fala Zenaide. – E muitas vezes, querer morrer é algo tão legitimo e correto, que não tem “Vale dos Suicidas ou Trevas” que segurem a criatura.
- Se pensa assim, por que salvaram a vida dele? Por que não respeitaram a vontade que ele tinha de morrer?
- Somos humanos. Temos impulsos e agimos muitas vezes sem pensar. Nossa primeira ação foi querer salva-lo. Se o desejo de morrer for realmente forte, ele tentará novamente e terá êxito. Mas se também a tentativa foi consequência de um impulso momentâneo, ele voltará atrás e renascerá das cinzas. Não foi à toa que estávamos exatamente lá, no momento em que ele iria morrer.
- Sorte dele ter encontrado vocês!
- Isso é o que veremos quando ele acordar – pondera Pedro. – Para certos suicidas, a vida já é realmente tão sem sentido que não há coisa pior do que serem salvos da tentativa. Mas também não é por isso que diante de um ato de extremo desespero, a gente vai deixar de dar mais uma chance para o cara mudar de vida e ser feliz.
- É verdade, como se chama, senhora? – A médica lhe pergunta.
- Zenaide.
- Dona Zenaide, sua postura sobre o suicídio é inteiramente nova para mim e amplia a minha visão. Saber que posso ser livre para nascer e morrer quando, onde e como quiser, me dá uma sensação de poder nunca antes imaginada.
- Somos Deuses, querida. Podemos tudo. Desde que saibamos sempre que toda ação gera um efeito, é bom que nos assumamos como Seres Cósmicos, capazes de qualquer coisa. E que não haverá nenhum juiz ou bem-feitor para nos condenar ou nos aplaudir, a não ser nós mesmos.
- O papo está ótimo, mas eu preciso ir. Tenho muito trabalho para fazer.
- Que Santa Sara te abençoe, minha filha.
- Amém, cigana Zenaide. Onde posso encontrá-la depois?
- No acampamento, perto da entrada da cidade.
- Ótimo. Irei lá...
- Será um prazer recebê-la.

Mais tarde, Flávio desperta atordoado e é acolhido por Zenaide e Antonio:
- Que lugar é esse?! Onde estou?
- Você está no hospital, Flávio – responde Antonio carinhosamente.
- Eu não morri?!
- Não.
Flávio olha para Antonio e se lembra que ele segurou suas pernas. Fecha os olhos e se lastima. Recorda que no momento em que foi salvo pelo cigano, pensou: “Que é que esse imbecil está fazendo? Que merda! Me deixa morrer em paz!...”.
- Foi você quem salvou minha vida?
- Fui eu sim.
- Você não deveria ter feito isso. Eu já estava chegando lá... Se não fosse você, eu teria conseguido.
Flavio começa a chorar e Antonio fica perplexo:
- É tão doloroso... – diz Flavio – que não sei se terei coragem novamente... Eu já estava quase lá... E agora, como é que eu vou viver em meio a tanta desgraça?!
- Eu pensei que estava te ajudando... – fala Antonio sem graça. Sâmia o apóia.
- A maior ajuda que você poderia ter me dado naquele momento, seria deixar-me morrer.
Antonio se afasta de Flávio e vai juntar-se a Pedro, com Sâmia.
- Por que tanta revolta, filho? – Pergunta-lhe Zenaide com docilidade e compaixão.
- Porque odeio essa vida!!!
- E por que a odeia?
Flavio pára, olha para o alto, lembra-se de tudo o que vem sofrendo e cai em prantos. Nesse momento, Doutora Kátia se aproxima dele e aperta sua mão com carinho e diz:
- Chore! Vai ficar tudo bem.
- Será, doutora?
- Vai, sim.
Ela é chamada por outro médico, pede licença e se retira.

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